UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE ARTES LICENCIATURA PLENA EM DANÇA Mariana Ribeiro Pinto Brimdjam UM OLHAR SOBRE A NUDEZ EM CENA NA DANÇA CONTEMPORÂNEA NATAL/RN 2015 Mariana Ribeiro Pinto Brimdjam UM OLHAR SOBRE A NUDEZ EM CENA NA DANÇA CONTEMPORÂNEA Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Curso de licenciatura em Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de Licenciada em Dança. Orientador: Prof.ª Dr.ª Larissa Kelly de Oliveira Marques Tiburcio Natal/RN 2015 Mariana Ribeiro Pinto Brimdjam UM OLHAR SOBRE A NUDEZ EM CENA NA DANÇA CONTEMPORÂNEA Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Curso de licenciatura em Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de Licenciada em Dança. Aprovado em : ___/___/____ BANCA EXAMINADORA ___________________________________________________________________ Prof.ª Larissa Kelly de Oliveira Marques Tiburcio – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Orientador ____________________________________________________________________________ Prof.ª Patrícia Garcia Leal - Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Banca examinadora ___________________________________________________________________ Prof. Makarios Maia Barbosa - Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Banca examinadora Com todo amor, dedico esse trabalho a minha mãe Maria Abigail Gomes Ribeiro, que sempre me incentivou a buscar conhecimento acima de tudo, e proveu recursos para que eu chegasse até aqui. Dedico também aos meus mestres do curso de Licenciatura em Dança da UFRN, pelo carinho e dedicação em cada disciplina, e em especial a Professora Dr.ª Larissa Kelly de Oliveira Marques Tiburcio, que me orientou com carinho e empenho e me inspirou com seu exemplo e dedicação a docência. AGRADECIMENTO Agradeço primeiramente á Deus, ao destino, à natureza, a força diretriz de nossas vidas, seja ela qual for que me permitiu entrar para a UFRN e estudar no Departamento de Artes. Lugar onde vivenciei muitas experiências e conheci pessoas incríveis que contribuíram para minha construção acadêmica e para minha formação enquanto pessoa, bailarina e profissional. Agradeço também a toda minha família, tios e primos, a minha mãe, ao meu padrasto Franscisco Ferreira (in memorian), e aos meus irmãos Oliver Ribeiro Pinto Brimdjam e Erick Ribeiro Pinto Brimdjam, por entenderem e apoiarem as minhas escolhas, pela convivência, pela paciência e incentivo em todos os momentos. Aos meus amigos pelo apoio, pelo companheirismo e pelos momentos de lazer sem os quais eu não passaria. A Hellen Francisca e Bruna Rodrigues, por estarem ao meu lado fortalecendo em todos os momentos. Ao Felipe Américo, pela parceria na vida! A Brenda Lopes e Sara Judy, por entrarem da minha vida de modo a construir uma amizade sincera na pulsação dos sambas! A Ana Paula Bezerra Alves, por ser mais que amiga e se tornar uma irmã! A Susanne Rhaquel Guerra da Silva, pela parceria acadêmica sem a qual não chegaria até aqui, por compartilhar de forma verdadeira tantas disciplinas, trabalhos e a vida. As escolas que trabalhei e grupos de dança em que participei, que somaram em conhecimento e contribuíram no nascimento e crescimento do amor que tenho por esta arte. Grupo BR Dança de Rua, Grupo Chosen, EDTAM, Evidance, Academia Espaço A2, Grupo Força Zouk, Celeiro de Bambas, Colégio Hipócrates ZS. Aos meus amigos e professores de dança aos quais tenho enorme carinho e aprendo a cada encontro: Milene Azevedo, Getúlio Batista, Marcelo Santos, Gislâne Cruz, Joark Shimit, Agnes Arícia, entre tantos outros. A todos os meus amigos de curso! Agradeço em especial à Larissa Kelly, Karenine Porpino e Mayra Montenegro pelas disciplinas ministradas ao longo do curso onde aprendi lições que carregarei sempre comigo e por serem o exemplo de educadoras que pretendo seguir. E por fim, ao meu pai, Antônio Pinto, que se fez presente mesmo na sua ausência. RESUMO Este artigo propõe uma reflexão sobre a presença da nudez nas criações em dança contemporânea na cidade do Natal/RN. Tais reflexões se constituem como desdobramento de pesquisas e entrevistas, construindo um diálogo entre autores, bailarinos, e público que tiveram contato, abordaram essa temática ou se utilizaram deste elemento em suas obras. Através da contextualização histórica, pode-se compreender diferentes aspectos sobre essa nudez. As escolhas metodológicas buscaram coerência com os objetivos da pesquisa, conduzindo a uma investigação e uma análise da percepção da nudez na dança contemporânea. Palavras-chaves: Dança contemporânea, Nudez na dança contemporânea, Corpo e nudez ABSTRACT This article proposes a reflection on the presence of nudity in the creations in contemporary dance in the city of Natal / RN. Such reflections are unfolding as research and interviews, building a dialogue between authors, dancers and audience that had contact, addressed this topic or used this element in his works. Through historical context, one can understand different aspects of this nakedness. The methodological choices have sought consistency with the objectives of the research leading to an investigation and an analysis of the perception of nudity in contemporary dance. Keywords: Contemporary dance, nudity in contemporary dance, body and nudity SUMÁRIO 1- Dança e Nudez: Primeiras impressões................................ 11 2- Que corpo e porque dança....................................................13 3- Sobre a presença do nu.........................................................16 4- Considerações Finais.............................................................21 5- REFERÊNCIAS....................................................................23 11 DANÇA E NUDEZ: PRIMEIRAS IMPRESSÕES Pensar a nudez do ponto de vista da arte é mergulhar no ser humano integral. Embora, se costume associá-la ao erotismo, a nudez pode ter diversas interpretações e significados, da mitologia até a religião, passando pelo estudo anatômico ou ainda como representação da beleza e do ideal estético de uma dada sociedade. O nu sempre esteve presente na arte, ora como subversão da ordem social, ora como expressão de libertação do homem, ou ainda como tentativa de aproximação da nossa condição primeira no instante do nascimento. A arte que se faz como uma possibilidade de leitura do mundo e do ser humano é um reflexo e retrata a vida nas suas mais variadas formas. A nudez se encontra imbricada neste reflexo como representação do homem e do corpo em sua essência. A dança é o movimento do corpo no espaço/tempo que pode ser livre de qualquer pretensão que não seja o prazer, a dança pela dança. Como também, pode ser carregada de ideologias, significados e sentimentos que transbordam o espaço cênico chegando até o espectador. Cada cultura e cada sociedade tem um nível de codificação do corpo cênico, os mesmos gestos, movimentos ou posturas podem ser interpretados diferentemente dependendo da posição geográfica e do período histórico em que estão acontecendo, o que demonstra a influência do espaço e do tempo na experiência perceptiva do ser humano diante da cultura. Desse modo, a nudez é vista de formas diferentes em nossa sociedade contemporânea. Em uma apresentação de dança em uma tribo indígena, por exemplo, grandes roupas e adornos causariam muito mais estranheza do que o nu. Já no contexto cultural e social a qual estamos inseridos, um corpo esteticamente bem apresentável é um corpo coberto e adequadamente vestido. No âmbito da dança, o corpo despido passou a ser largamente utilizado especialmente na dança contemporânea, especificada pela autora Tereza Rocha em seu artigo: O que é dança contemporânea? Como, toda a dança do século XX que “se inventa a partir de seus próprios recursos” (Brown apud LOUPPE, 2004). A nudez encontra-se aí como a representação e forma de materialização e expressão dessa realidade através do figurino, ou na ausência dele. O corpo nu na dança permite então inúmeras possibilidades de leituras e interpretações ao público. Neste escrito, nos debruçamos sobre uma reflexão da presença dessa nudez em algumas criações coreográficas apreciadas em Natal –RN e dialogaremos, através de 12 depoimentos, com alguns espectadores e interpretes criadores sobre suas vivências e experiências com essa condição do corpo. Estes foram questionados sobre o tipo e identificação do trabalho que assistiram/dançaram, o que sentiram ao dançar/assistir apresentações onde existia nudez, como sentiram a reação das outras pessoas, quais outros momentos tiveram contato com esta nas artes em geral, qual a opinião deles sobre a presença da nudez em público, quais os seus conhecimentos prévios sobre a nudez na dança contemporânea, entre outras questões. A partir dessas breves palavras iniciais, o presente artigo versa sobre a presença e a experiência da nudez na dança contemporânea, a partir da análise de bibliografia e artigos que abordam de diferentes formas esta temática. Nesse sentido, esse artigo busca refletir sobre as relações e o trato da nudez na dança contemporânea e o modo como ela é percebida pelos bailarinos e pelo público. Esse tema foi por nos escolhido a partir da observação dos vários questionamentos e inquietações que o nu provoca quando presente nas artes cênicas, e da necessidade de compreensão das motivações e objetivos da utilização deste. Pensar sobre a produção em dança na cidade do Natal, pode contribuir para que os interpretes e coreógrafos ressignifiquem o seu próprio fazer artístico e abre outros caminhos para reflexão. Pode apontar também uma contribuição para aqueles que apreciam a dança como outras formas de ler e sentir a nudez para além da sua aceitação a partir de uma dada norma cultural. Esse texto é pensado nas seguintes partes: No primeiro tópico, que corpo, e por quê dança? Abordamos a visão histórica do corpo, sua constituição, e sua estética de acordo com o tempo e as diferentes condições em que se encontra, abordamos também o surgimento da dança e a necessidade da expressão através do movimento. No segundo tópico, sobre a presença do Nu, procuramos entender a nudez, o pudor, a relação do homem com as roupas, a importância do figurino, através de entrevistas e depoimentos buscamos compreender quais sentimentos a nudez provoca em diferentes tipos de público e espaço, analisando obras apresentadas na cidade de Natal/RN. 13 QUE CORPO, E POR QUÊ DANÇA? Historicamente, desde a Grécia antiga, a arte enaltece as qualidades estéticas do corpo, sendo este um tema bastante enfatizado nas artes em geral, não só o corpo biológico, mas o corpo como detentor de alma e sentimentos. Pois, a arte inspira-se na vida e o corpo é matéria fundamental em nossa concepção ocidental de existência, enquanto ser humano vivo. Nosso corpo é único e nos pertence por natureza. Essas particularidades estão contidas em todos os elementos de que somos formados, no nosso eu físico, mental, cultural e social. Marcel Mauss (1934), antropólogo francês que viveu no início do século XX, explicava que a dimensão corporal devia ser compreendida de um ponto de vista triplo: o biológico, o psicológico e o sociológico. O biológico, nossa massa, nossa matéria, a parte palpável de nós, carne, sangue, músculos, pelos, uma máquina perfeita em constante transformação e decomposição. O psicológico, que inclui nosso comportamento, sentimentos e processos mentais. E o sociológico, que se refere, também, a nossa origem, afetividade, desenvolvimento e relacionamento em sociedade. Assim, o corpo não poderia ser entendido separadamente, não sendo necessário analisar apenas uma dessas dimensões, mas, como parte de uma totalidade. Somos formados das coisas contidas em nós e ao nosso redor. Para o filósofo existencialista Merleau-Ponty (2006, p.217), “o corpo veste-se de mundo, pois o corpo é uma unidade de experiências, ao mesmo tempo corpo-sensível e corpo-que-pensa. ” Essa formação é continua e inacabada, pois a cada novo momento vivido, a cada instante, novos elementos passam a nos integrar. Não só os moldes do nosso corpo como a forma que comemos, andamos, dançamos, nossa concepção moral, ética e do belo, são diretamente determinadas e manipuladas pela nossa formação primária, e vão sofrendo alterações relevantes no decorrer de nosso desenvolvimento social e cognitivo. De acordo com Le Breton (1999, p.28) O corpo não é mais apenas, em nossas sociedades contemporâneas, a determinação de uma identidade intangível, a encarnação irredutível do sujeito, o ser-no-mundo, mas uma construção, uma instância de conexão, um terminal, um objeto transitório e manipulável suscetível de muitos emparelhamentos. Esta nossa estrutura, construída de vivências é particular a cada ser humano. Mesmo quando desenvolvidos em lugar semelhante, por exemplo, irmãos gêmeos univitelinos, que dividem o ventre da mãe e criados de forma idêntica, podem até serem parecidos, mas não são 14 iguais, cada um possui características exclusivas resultantes de suas próprias percepções, experiências e associações. “A natureza criativa do homem se elabora no contexto cultural. Todo indivíduo se desenvolve em uma realidade social, em cujas necessidades e valorações culturais se moldam os próprios valores da vida. ” (OSTROWER,1977, p. 187) As diferenças estéticas e comportamentos entre povos e nações são percebidas e analisadas há tempos. O corpo marcado pela região onde nasceu e se desenvolveu traz com ele características originadas de seus hábitos, clima, região, e principalmente carga genética. Essas diferenças no passado foram utilizadas como critério de seleção do bom e do ruim, e como motivo de guerras, extinção de raças, separação e de soberania de um povo sobre outro. Este corpo complexo e dinâmico, parte de um homem integral, que sente, pensa e cria, tem a necessidade natural de contar algo, de se envolver no mundo, de ser linguagem, de expressar suas vontades, experiências e emoções através dos sentidos, das relações e da arte. A dança se encontra então como uma realização e manifestação dessa expressividade intrínseca ao ser humano, uma exteriorização dos seus sentimentos. Para Katz (2005, p.58) Desde crianças percebemos, apreendemos, conhecemos o mundo através do nosso corpo e no nosso corpo. Ele é instrumento e a própria resultante de nosso conhecimento, de nossa cultura. A dança nada mais é que a expressão (em forma bruta ou refinada) dessa vivência, da percepção singular de mundo de cada sujeito. A dança não é uma linguagem universal, ‘aquilo que vem de dentro’, mas o próprio pensamento do corpo. O homem vem dançando desde que se sabe de sua aparição e da sua organização em sociedade, antes de se comunicar pela palavra o homem já dançava, um estimulo então primitivo, mas presente, uma necessidade interior. Seja em cerimônias religiosas, festejos ou rituais. Refletir sobre a dança é pensar sobre as várias possibilidades de comunicação através do movimento concreto ou abstrato, dos gestos e das sensações corporais e emocionais. O corpo que dança é um corpo que se faz arte e que fala sobre si mesmo. Mesmo quando uma história é contada em uma coreografia, vê-se ali muito mais do bailarino do que da história narrada, porque o gesto pelo gesto não é efetivo, mas sim o gesto valorado, carregado de significações e motivações. O corpo que dança é um corpo presente no mundo, tempo e espaço que se movimenta trazendo e expressando consigo no movimento todo um repertório íntimo e pessoal de memórias e marcas de sua existência. Segundo Merleau-Ponty (1999, p. 195) [...] não estou no espaço e no tempo, não penso o espaço e o tempo, eu sou no espaço e no tempo, meu corpo aplica-se a eles e os abarca. A amplitude dessa apreensão mede a amplitude de minha existência; mas, de qualquer maneira, 15 ela nunca pode ser total: o espaço e o tempo que habito de todos os lados têm horizontes indeterminados que encerram outros pontos de vista. As sínteses do tempo assim como a do espaço são sempre para recomeçar. Podemos então entender o movimento em dança sendo diferente do movimento natural realizado nas atribuições do dia-a-dia. Ao se mover na dança o corpo assume outra conotação, assume uma personificação poética, atribui ao movimento natural uma técnica e estética definida, resignifica seus hábitos se diferenciando do corpo que atua no cotidiano. “ A dança não significa reproduzir apenas formas. A forma pura é fria, estática, repetitiva. Dançar é muito mais aventurar-se na grande viagem do movimento que é a vida. Nesse sentido, a forma pode se comparar à morte e o movimento à vida” (VIANNA, 1990, p.101). A dança como arte se recriar e se refaz ao longo do tempo, acompanhado o caminhar de nossa evolução enquanto ser vivo, membro de uma sociedade. A dança, então sofre influências da era em que vivemos, das novas possibilidades tecnológicas, das novas condições sociais, da urbanização, da mídia e da globalização. Fatores esses que influenciam e alteram a forma de se viver e a forma como vemos o mundo, influindo assim no surgimento de novas propostas nas artes, especificamente na dança. Com o surgimento da dança moderna, que se mostrou no século XIX e se firmou no século XX, o movimento se desprende dos limites impostos pela dança clássica, modalidade que surgiu nas cortes como forma de entretenimento para os reis e que foi sendo cada vez mais elaborada através de um código técnico de passos e normas, a dança moderna se desfaz dos movimentos metricamente harmônicos, e dos cenários e figurinos ilusórios, passando a se permitir se libertar e improvisar, recebendo cada bailarino com sua individualidade, seu corpo e sua história. De acordo com Eliana Rodrigues da Silva (2005, p. 97), O uso do centro do corpo como propiciador do movimento, os pés descalços, o uso do chão não apenas como suporte, mas onde os dançarinos podiam sentar e deitar, o uso diferenciado da música de maneira não literal e principalmente a utilização de uma dramaticidade direta oriunda do movimento, da temática e dos personagens, em oposição ao lirismo considerado superficial do balé clássico, foram alguns traços que definiram a filosofia criativa e a linguagem da dança moderna. A partir do movimento do Judson Church¹1 no final da década de 1950 a dança acentua uma busca por uma outra forma de comunicar que se distancia da referência do balé e das danças populares. A dança então passa a se configurar menos vinculada a um código técnico fechado e passa a valorizar com mais ênfase as qualidades expressivas e a multiplicidade do 1 Movimento que surgiu em Nova York que se autodenominou pós-moderno, em negação aos preceitos da dança moderna. 16 corpo se mover como referência primeira do seu expressar. Liberta para ser poética, livre de artifícios, de um ideal de perfeição da estética clássica¹, recheada de dramaticidade, interage com outras vertentes artísticas, como, por exemplo, o teatro e a música, complementando-se e potencializando-se. E se apropria também dos mais variados objetos, figurinos, e cenários, incluindo espaços urbanos. 17 SOBRE A PRESENÇA DO NU A nudez vem sendo elemento recorrente nas performances em dança contemporâneas. E ao nos depararmos com sua utilização surgem de imediato inúmeros questionamentos sobre os seus reais motivos e intenções. Porque esses questionamentos surgem? Porque a nudez em nossa sociedade provoca espanto e constrangimento? Qual a sua função quando tratamos da arte como canal de provocação, transformação, informação e, por conseguinte educação? As respostas para essas perguntas são complexas e vão além da nossa intenção com este escrito, mas aqui vamos tentar refletir um pouco sobre a nudez na dança e compreender as respostas de tantas perguntas. A nudez é uma condição pessoal onde uma pessoa se encontra total ou parcialmente despida de roupas ou qualquer ornamento, porém, o corpo nu causa ao espectador o sentimento de estranhamento, constrangimento e pudor. O pudor pode ser entendido como ter discrição, ou recato com algo que se diga ou faça, e é comumente utilizado quando relacionado ao corpo. Pode também apresentar-se como uma negação da sexualidade, ou das manifestações sexuais, vê-se isso fortemente impregnado em muitas culturas por uma tendência um tanto puritana Pudor é o que impede que a pessoa faça algo indecente, é a vergonha de mostrar o corpo, de ficar exibindo-se. O pudor é o sentimento da pessoa que não quer ser esvaziada nas suas expressões, nem ameaçada em seu ser pelos sentimentos que assumiria a sua existência. O pudor físico não traduz a impureza do corpo, mas antes significa que eu sou infinitamente mais do que esse corpo olhado e alcançado. O pudor dos sentimentos revela que cada um deles me limita e me trai. Ambos são sinal de que não sou simples joguete nas mãos da natureza ou dos outros. Não fico envergonhado por ser essa nudez ou esse personagem, mas por parecer não ser mais do que isso. O contrário do pudor é a vulgaridade, o consentimento em não ser mais do que oferece a aparência imediata quando se exibe perante os olhares públicos. (MOUNIER, 2004, p.59-60). Sabe-se que a utilização de roupas surgiu a priori por necessidade do ser humano se proteger do frio e do calor, por exemplo, a pele animal. Com o passar dos tempos e a evolução para se tornar o que chamamos hoje de civilização, o hábito de se vestir passou a ter outras funções, a de padronização, de dominação social e de disciplina sobre o corpo. Segundo Foucault (1987, p. 118) “[...] em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes 18 muito apertados, que lhe impõe limitações, proibições e obrigações. ” Na função estética, a nudez foi então se tornando cada vez mais estranha aos olhos quando em público, prova disso é que em sociedades ou grupos mais isolados que preservam um estilo de vida mais rústico e tradicional pode-se ainda encontrar a nudez presente no cotidiano de forma natural. Vestir-se na atualidade não só é uma necessidade como também uma forma de exteriorizar preferências e ideologias, mesmo que inconscientemente nossas roupas enviam mensagens, falam sempre algo sobre nós, sempre existe um porque na escolha entre uma peça ou outra. A simbologia das roupas se diferencia de acordo com a cultura, região, ou crenças, e de certa forma, vincula povos, grupos e classes sócias, transborda ao mundo nossa individualidade. Para Chevalier (1996, p.947) A roupa - própria do homem, já que nenhum outro animal a usa - é um dos primeiros indícios de uma consciência da nudez, de uma consciência de si mesmo, da consciência moral. É também reveladora de certos aspectos da personalidade, em especial do seu caráter influenciável (modas) e do seu desejo de influenciar. O uniforme, ou uma peça determinada do vestuário (capacete, boné, gravata etc.) indica a associação a um grupo, atribuição de uma missão, um mérito [...]. Nas artes o figurino é parte fundamental de qualquer personagem, contribui para a afirmação deste e por vezes se completa ao cenário. “O figurino engloba trajes, acessórios, adereços e maquiagem, portanto tudo que compreenda a caracterização do personagem que provenha de elementos exteriores ao corpo do ator, enfim os elementos que o caracterizam” (MUNIZ, 2004, p. 156). Na dança aquele tem papel essencial na composição do trabalho, no complemento da mensagem enviada ao público, da representação e da construção da estética que se pretende. A historiadora e figurinista Emília Duncan (2003), se refere ao figurino como segunda fonte narrativa, e garante que suas possibilidades estéticas e plásticas são de total importância para o processo de construção visual. A nudez em cena então pode ser percebida como um figurino, pois traz em si todo um arcabouço de razões e intenções provenientes desta escolha. E pode ter por objetivo a provocação, a intimidação, a inquietação, ou simplesmente a representação do corpo livre, do bailarino/ ator despido de trajes e de si mesmo, construindo o figurino com sua própria pele, entre outros significados. Na dança, o próprio corpo é a matéria prima e a obra de arte. A nudez na dança, presente especialmente na dança contemporânea teve como uma de suas principais promotoras a coreógrafa e bailarina Isadora Duncan, que em vários de seus trabalhos se apresentou seminua ou com finas telas transparentes, com a intenção de confrontar o academismo e a rigidez do Balé Clássico. A partir dos anos de 1990, o corpo nu 19 se torna cada vez mais presente nas produções contemporâneas em dança, na Europa, na América do Norte e no Brasil. Podemos constata-la em algumas obras de coreógrafos brasileiros como Vênus é um menino (1995) de Andrea Druck²2, O samba do crioulo doido (2003) de Luiz de Abreu, e Formas Breves (2004) de Lia Rodrigues. Ao se vestir de nu a intimidade de cada bailarino é compartilhada com os espectadores, ele se coloca ali por inteiro sem nada que possa disfarçar ou esconder seu eu de quem o assiste, ou dele mesmo. Ao se expor tão aparentemente vulnerável esta presença causa inquietação até aos olhos mais habituados. Abordamos este tema com um bailarino, Graduando do curso de Licenciatura em Dança na UFRN, interprete Criador, que vivenciou a nudez em diferentes trabalhos ao longo de sua trajetória na dança em Natal e na Cidade de São Paulo, onde residiu e trabalhou como bailarino por algum tempo. Esse rapaz relata que, sempre que se deparava com algum trabalho onde ele deveria estar nu, ou seminu, soava como um desafio, sendo muito difícil superar a vergonha e se colocar tão exposto e vulnerável, isso lhe causava espanto, e constrangimento. “ A primeira coisa que eu pensava quando sabia que teria que dançar nu era, se a luz usada ressaltaria ou esconderia os defeitos do meu corpo, e momentos antes das apresentações chegava a ter calafrios de tão nervoso”. Nos conta que, quando nos ensaios finais, onde já se passava a coreografia sem o figurino, não existia constrangimento entre os integrantes do grupo, que na verdade o maior impacto era entre ele e o público, lhe causava ansiedade não saber qual seria a reação da plateia, diz que, na verdade sempre tinha a impressão de que os corpos chamavam mais a atenção do que a mensagem que tentavam passar, isso as vezes era bom e intencional e as vezes não. Revela também que acredita que parte do sucesso das apresentações se dava pelo motivo de sempre receber um público específico nos teatros, na maioria, pessoas já envolvidas com a arte, talvez os resultados seriam outros se fossem apresentados em outros espaços. ” A nudez na dança só funciona para quem consegue enxergar além de apenas corpos nus, isso ainda é para poucos”. É interessante perceber que assim como a nudez pode se apresentar por diversas razões, a sua forma e o seu contexto pode causar diversas reações. Podemos tomar exemplo, a nudez das passistas das escolas de samba no carnaval, não causa tanta estranheza e por vezes passam despercebidas, apesar de ser igualmente um corpo humano, dançando e despido. Já a nudez apresentada no trabalho intitulado “Corpo Livre” do grupo Cruor Arte contemporânea na Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2014, onde os bailarinos 2 Andrea Druck, interprete e coreografa membro da Ânima Cia de Dança, companhia criada em 1991 por Eva Schul em Porto Alegre. 20 dançavam sem roupas com os corpos pintados de branco acompanhados por músicos, causou grande agitação na universidade, sendo esta performance falada por semanas nos corredores e nas redes sociais, novamente falamos igualmente de corpos humanos, dançando e despidos. Uma estudante do curso de Letras Espanhol da Universidade que assistiu a esta apresentação do Grupo Cruor nos contou que a performance primeiramente lhe causou espanto e rejeição “ não tinha sentido nem explicação para aquelas pessoas dançando peladas ali, eu procurei um folheto, uma placa, qualquer coisa explicando. ” Ela nos relatou também que via as outras pessoas que assistiam cochichando ou rindo, e que ficou até o final esperando que alguém do grupo desse uma explicação sobre aquilo. “Eu gosto de dança, mas não frequento o teatro e nunca li nada sobre, tenho consciência que minha rejeição pode ser um tipo de ignorância, mente fechada ou algo assim”. Outra integrante da plateia desta mesma apresentação foi uma atriz e bailarina, graduada em Teatro pela UFRN, e nos contou que ao seu olhar os corpos brancos eram apenas um detalhe, eles falavam mais, tinham um significado maior. “ Para mim a nudez ali era só um canal para o bailarino estar entregue, despido das amarras sociais, eu via muito mais que isso, tinha cadência, tinha música, tinha arte. ” Ela nos conta também que na sua opinião o espanto causado é apenas falta de habito, que a população precisa ter mais contato com a arte que questiona, que incomoda, e não só com a arte agradável, de entretenimento. O contexto e o perfil do público em que a nudez nas artes é inserida então podem mais uma vez significá-la. É sabido que nem sempre a intenção do intérprete/coreógrafo se concretiza na recepção pelos apreciadores podendo tomar diversos caminhos e formas além do esperado, pois cada espectador constrói suas próprias ligações de acordo com o que vê. Essas conclusões e associações a que chega o espectador na verdade tem mais haver com ele, suas impressões e o seu gosto, que está relacionado à sua educação, práticas culturais e origem social do que com o que é exibido. Para Pavis (2007, p. 188), O gosto em seu sentido amplo – o de expectativa e de avaliação – é, em compensação, um dado essencial para apreciar a maneira pela qual o público recebe o espetáculo (...) ou percebe a encenação em função dos códigos, a forma, também, pela qual os gostos se modificam com o tempo e com as ideologias, como o bom e o mau gosto estão sujeitos a constantes alterações. Em maio de 2012, em uma apresentação em comemoração ao dia mundial da dança no Teatro Alberto Maranhão em Natal, a bailarina e professora Ana Carolina Vieira apresentou o trabalho intitulado “ O figurino era minha pele” onde dançou nua para uma plateia recheada 21 de alunos e familiares da Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão. Tamanha foi a polêmica diante dessa apresentação que acarretou no afastamento da professora da escola. Ana Carolina, em entrevista ao Novo Jornal declarou “Eu não queria provocar, o desejo era dançar, apenas isso”. A diretora da escola Wanie Rose disse que foi pressionada pelos pais e mães dos alunos, que ficaram horrorizados com a cena. Neste mesmo ano, no palco do mesmo teatro o dramaturgo paulista José Celso Martinez, diretor conhecido pela polêmica de seus textos e apresentações, esteve em Natal para dar uma aula/palestra em comemoração ao dia Mundial do teatro. Em sua atuação também houveram momentos de nudez total, a plateia era em sua maioria atores e estudantes de artes, segundo um dos espectadores que nos relatou sua experiência, naquele ambiente a nudez foi vista com total naturalidade. É claro perceber como os dois casos foram tratados de maneira completamente distintas, mesmo ambos sendo semelhantemente corpos nus atuando. Ter um público capaz de se apropriar da mensagem pretendida de forma coerente é questão de formação e de certa forma educação para um olhar diferenciado às artes. Pois não só é preciso assistir, como compreender e sentir o que ali nos é mostrado. Para Bourdieu (2007, p.10), A obra de arte (espetáculo de dança), só adquire sentido e só tem interesse para quem é dotado do código, segundo a qual ela é codificada. [....] O espectador desprovido do código específico sente-se submerso – “afogado” diante do que lhe parece ser um caos de sons e de ritmos, de cores e linhas (gestos), sem tom nem som. Bourdieu esclarece que temos em nós códigos que são diretamente correspondentes a nossa formação, época e hierarquia social que assimilam o que nos é mostrado, formando as nossas preferências, fazendo com que o espectador goste ou não do que vê desde que tenha ou não os códigos necessários. Compreendemos então que a formação da nossa opinião é constituída por nossa capacidade de compreensão e assimilação do que assistimos. A escola emerge como uma instituição fundamental para a constituição do indivíduo e para ele próprio, da mesma forma como emerge para a evolução da sociedade e da própria humanidade, podendo ser aliada a outros canais de educação, uma ferramenta fundamental no trato e na construção de olhares preparados e sedentos pela arte, mais especificamente pela dança. 22 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do escrito, podemos destacar que a nudez na dança contemporânea até pode ser exposta de forma insipiente, aleatória, mas assim dificilmente será absorvida de forma satisfatória, visto que necessita de um público disponível, aberto, capaz de assimilar a obra de forma a compreender as motivações, questionamentos, e intenções do criador e construir seus próprios conceitos. Neste sentido, acreditamos que o educador, enquanto mediador do conhecimento e construtor de uma sociedade verdadeiramente pensante, pode ser o agente transformador capaz de protagonizar a construção de mentes livres, educadas a apreciação da nudez na dança, mentes estas que não se estagnam nos primeiros impulsos e se permitem compreender o real significado da presença deste nu. A elaboração superior da estrutura em superestrutura na consciência dos homens, em que ocorre a efetiva incorporação dos instrumentos culturais, transformados agora em elementos ativos de transformação social. (SAVIANI, 2003, p. 72). ” 23 REFERÊNCIAS BANES, Sally. Terpsichore in sneakers Post-modern dance. Middletown: Wesleyan University Press, 1997,p.20 BOURCIER, Paul. História da dança no ocidente. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. COHEN, Selma Jeanne. Dance as a theatre art: Source readings in dance history from 1581 to the presente. New York: Harper and. Row Publishers, 1974, p. 123. DAOLIO, Jocimar. 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