ALÉM DE ROSTOS  Antirretratos em pintura          Olga Oliveira Guedes        OLGA OLIVEIRA GUEDES                  ALÉM DE ROSTOS: ANTIRRETRATOS EM PINTURA      Trabalho apresentado à Universidade Federal do Rio Grande  do Norte como requisito parcial para a conclusão do curso de  Licenciatura  em  Artes  Visuais,  sob  orientação  da  Profª  Drª  Bettina Rupp.        NATAL, RN  2018    2                  Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN  Sistema de Bibliotecas - SISBI  Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Departamento de Artes - DEART  Guedes, Olga Oliveira. Além de rostos : antirretratos em pintura / Olga Oliveira Guedes. - 2018. 62 f.: il. Monografia (licenciatura) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Licenciatura em Artes Visuais, Natal, 2018. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Bettina Rupp. 1. Pintura. 2. Retratos. 3. Antirretrato. I. Rupp, Bettina. II. Título. RN/UF/BS-DEART CDU 75.041 Elaborado por Olga Oliveira Guedes - CRB-X 3      OLGA OLIVEIRA GUEDES      ALÉM DE ROSTOS: ANTIRRETRATOS EM PINTURA      Natal, ​3 ​ de dezembro de 2018.        BANCA EXAMINADORA    ___________________________________________ Profª Drª Bettina Rupp – UFRN    ___________________________________________ Prof. Dr. Vicente Vitoriano Marques Carvalho – UFRN    ___________________________________________ Prof. Me. Artur Luiz de Souza Maciel – UFRN    4      RESUMO  ABSTRACT      Este  memorial  descreve  o  processo  criativo  das  onze  This  memorial  describes  the  creative  process  of  eleven  pinturas que compõem a série  ​Além de rostos​. A pesquisa  artworks  that  make  up  the  series  of  paintings  B​ eyond  desdobra-se  a  partir  da  investigação  sobre  o antirretrato,  faces​.  The  research  unfolds  from  investigations  of  the  um  conceito  contemporâneo  que  consiste  em  esconder  anti-portraiture,  a  contemporary  concept  that’s  consists  total  ou  parcialmente  o  rosto  do  indivíduo  representado.  in  partially  or  totally  hiding  the  face  of  the  represented  Para  tanto,  é  feito  um resumo das minhas produções nos  individual.  To  do  so,  it’s  shown  a  summary  of  my  últimos  dez  anos,  assim  como  uma  retrospectiva  da  productions in the last ten years as well as a retrospective  pintura  de  retratos  ao  longo  da  história  da  arte.  Em  of  portrait  painting  throughout  the  history  of  art.  Then  seguida,  são  analisados  os  trabalhos  de  artistas  que  there’s  an  analysis  of  artists  who  exploit  the  exploram  o  antirretrato  em  suas  obras,  como  René  anti-portraiture  in  their  works,  such  as  René  Magritte,  Magritte,  Hélène  Delmaire  e  Henrietta  Harris,  para  então  Hélène  Delmaire  and  Henrietta  Harris,  that  follows  the  partir  para  a  experimentação  artística  aqui  apresentada.  artistic  experimentation  here  presented.  In  the  end,  Ao final, são oferecidas conclusões sobre o papel do rosto  conclusions are given about role of the face in painting as  na  pintura  enquanto  elemento-chave  para  estabelecer  a  key  element  in  establishing  identity  links  between the  vínculos de identidade entre o observador e a obra de arte.  observer and the work of art.          PALAVRAS-CHAVE: pintura, retratos, antirretrato.  KEYWORDS: painting, portraits, anti-portrait.  5      LISTA DE FIGURAS    Figura 1:​ Olga Guedes, J​ hudora,​ 2008, pintura digital, 366 x 578 px. Fonte: .  14  Figura 2: ​ Olga Guedes, R​ okksane​, 2008, pintura digital, 485 x 1241 px. Fonte: .  14  Figura 3:​ Olga Guedes, ​Private,​ 2009, pintura digital, 800 x 649 px. Fonte: . 14  Figura 4:​ Olga Guedes, ​Precipitance,​ 2009, pintura digital, 670 x 590 px. Fonte: . 14  Figura 5: ​Olga Guedes, S​ till doll​, 2010, pintura digital, 758 x 1194 px. Fonte: . 15  Figura 6:​ Olga Guedes, ​Domain,​ 2010, pintura digital, 837 x 856 px. Fonte: . 15  Figura 7:​ Olga Guedes, C​ ecile​, 2013, lápis de cor sobre papel, 21 x 29,7 cm. Fonte: . 15  Figura 8:​ Olga Guedes, ​Falling in love​, 2013, pintura digital, 3508 x 2480 px. Fonte: . 15  Figura 9:​ Olga Guedes, ​Pietra,​ 2014, aquarela sobre papel, 14,8 x 21 cm. Fonte: .  16  Figura 10:​ Olga Guedes, ​Beth,​ 2014, aquarela sobre papel, 14,8 x 21 cm. Fonte: .   16  Figura 11:​ Olga Guedes, M​ arte​, 2016, acrílica sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: .  17  Figura 12: ​ Olga Guedes, L​ uce,​ 2016, acrílica sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: . 18  Figura 13:​ Olga Guedes, ​Vines,​ 2017, acrílica sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: . 19  Figura 14:​ Olga Guedes, ​Charlotte,​ 2016, aquarela sobre papel, 21 x 29,7 cm. Fonte: . 20  Figura 15:​ Olga Guedes, ​Giannina,​ 2018, aquarela sobre papel, 21 x 29,7 cm. Fonte: . 20  Figura 16:​ Diego Velázquez, ​Phillip IV em Armadura,​ 1628, óleo sobre tela, 57 x 44 cm. Fonte:  .  21  Figura 17: ​ Johannes Vermeer, A​ Leiteira,​ 1658, óleo sobre tela, 46x41 cm. Fonte: . 21  Figura 18:​ Gustave Coubert, O​ s Quebradores de Pedras,​ 1849, óleo sobre tela, 165 x 257 cm. Fonte:  .  21  6      Figura 19:​ Vincent van Gogh, A​ utorretrato,​ 1887, óleo sobre tela, 42 x 34 cm. Fonte:  . 22  Figura 20:​ Paul Gauguin, R​ etrato de William Mollard​, 1894, óleo sobre tela, 46 x 38 cm. Fonte:  .  22  Figura 21:​ Henri Matisse, ​Retrato da Madame Matisse​, 1905, óleo sobre tela, 255,3 x 82,6 cm. Fonte:  .  22  Figura 22:​ Pablo Picasso, R​ etrato de Ambroise Vollard​, 1910, óleo sobre tela, 92 x 65 cm. Fonte:  . 22  Figura 23:​ Diego Rivera, ​Maternidade Angelina e o menino Diego​, 1916, óleo sobre tela, 132 x 86 cm. Fonte:  . 23  Figura 24:​ Paul Klee, ​Senecio,​ 1922, óleo sobre tela, 40,5 x 38 cm. Fonte: . 23  Figura 25:​ Egon Schiele, ​Autorretrato com camisa listrada,​ 1910, guache sobre papel, 305 x 443 cm. Fonte:  . 23  Figura 26:​ Edvard Munch, ​Autorretrato O andarilho da noite,​ 1924, óleo sobre tela, 90 x 68 cm. Fonte:  . 23  Figura 27:​ Frida Kahlo, ​Diego e eu​, 1949, óleo sobre compensado, 29,5 x 22,4 cm. Fonte:   .  24  Figura 28:​ Salvador Dalí, ​Galatea das Esferas​, 1952, óleo sobre tela, 65 x 54 cm. Fonte:  . 24  Figura 29:​ Roy Lichtenstein, ​Autorretrato,​ 1978, óleo sobre tela, 177,8 x 137,2 cm. Fonte:  . 24  Figura 30:​ James Rosenquist,​ Presidente eleito​, 1964, óleo sobre compensado, 228,0 x 365,8 cm. Fonte:  . 24      7      Figura 31: ​ René Magritte, O​ filho do homem​, 1964, óleo sobre tela, 116 x 89 cm. Fonte:     27  Figura 32:​ René Magritte, ​A reprodução proibida​, 1937, óleo sobre tela, 81,3 x 65 cm. Fonte:  . 27  Figura 33:​ René Magritte, ​Os amantes,​ 1928, óleo sobre tela, 54 x 73,4 cm. Fonte: . 27  Figura 34:​ Alexandra Levasseur, H​ ommage a Odilon​, 2014, óleo sobre madeira. Fonte: . 28  Figura 35: ​ Alexandra Levasseur, ​La Tourbiere,​ 2015, óleo sobre madeira. Fonte: . 28  Figura 36:​ Hélène Delmaire, A​ mbrosia​, 2016, óleo sobre madeira, 70 x 50 cm. Fonte: . 28  Figura 37:​ Hélène Delmaire, D​ 'amour et d'eau fraiche​, 2011, óleo sobre madeira, 20 x 15 cm. Fonte: . 28  Figura 38:​ Cesar Biojo, ​ Mireia 23​, 2014, óleo sobre tela, 40 x 40 cm. Fonte: . 29  Figura 39:​ Cesar Biojo, ​ Elvice​, 2014, óleo sobre tela, 40 x 40 cm. Fonte: . 29  Figura 40:​ Henrietta Harris, F​ ixed it VIII​, 2016, óleo sobre tela, 35 x 30 cm. Fonte: . 29  Figura 41:​ Henrietta Harris, F​ ixed it III​, 2016, óleo sobre tela, 70 x 65 cm. Fonte: . 29  Figura 42:​ Olga Guedes, E​ m busca do que é belo e vulgar,​ 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 30  Figura 43:​ Olga Guedes, C​ ompanhia,​ 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 31  Figura 44:​ Olga Guedes, ​Veredas I, ​ 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 32  Figura 45: ​ Olga Guedes, ​Veredas II,​ 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 33  Figura 46:​ Olga Guedes, F​ oi como ser feliz de novo,​ 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 34  Figura 47: ​ Olga Guedes, ​Te teria todo dia, ​ 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 35  Figura 48: ​ Olga Guedes, L​ ugar algum​, 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 36  Figura 49: ​ Olga Guedes, O​ tempo arde​, 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 37  Figura 50: ​ Olga Guedes,​ Eu sou as sobras,​ 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 38  Figura 51:​ Olga Guedes, ​Latente,​ 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 39  Figura 52:​ Olga Guedes, O​ deio despedidas​, 2018, aquarela sobre papel, 40 x 30 cm. Fonte: arquivo pessoal. 40  8      Figura 53: ​ Exemplo de uma pasta no Pinterest. 2018, captura de tela. Fonte: . 41  Figura 54:​ Pastas separadas por projeto de obra. 2018, captura de tela. Fonte: arquivo pessoal. 41  Figura 55:​ Painel semântico da obra “Veredas I”. 2018, captura de tela. Fonte: arquivo pessoal. 42  Figura 56: ​ Painel semântico da obra “Foi como ser feliz de novo”. 2018, captura de tela. Fonte: arquivo pessoal. 42  Figura 57:​ Referência fotográfica de “Em busca do que é belo e vulgar”. 2017, fotografia. Fonte: arquivo pessoal. 43  Figura 58:​ Referência fotográfica de “Companhia”. 2017, fotografia. Fonte: arquivo pessoal. 43  Figura 59:​ Ian Rassari, E​ quinócio,​ 2018, fotografia. Fonte: 45  Figura 60:​ Alex Oliveira, ​Benzinhos,​ 2018, fotografia. Fonte: 45      9      SUMÁRIO    1. INTRODUÇÃO 11  2. DEZ ANOS ATRÁS 13  3. O RETRATO NA PINTURA 21  4. O ANTIRRETRATO 25  4.2 REFERÊNCIAS VISUAIS 27  5. A SÉRIE “ALÉM DE ROSTOS” 30  5.1 PROCESSO CRIATIVO 41  6. CONSIDERAÇÕES FINAIS 46  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 50  APÊNDICE A — PLANO DE AÇÃO PEDAGÓGICA #1 52  APÊNDICE B — RELATÓRIO DAS ATIVIDADES DA AÇÃO PEDAGÓGICA #1 54  APÊNDICE C — POSTER DE DIVULGAÇÃO DA AÇÃO PEDAGÓGICA #1 58  APÊNDICE D — PLANO DE AÇÃO PEDAGÓGICA #2 59  APÊNDICE E — RELATÓRIO DAS ATIVIDADES DA AÇÃO PEDAGÓGICA #2 61        10      1. INTRODUÇÃO  não só satisfaça meus questionamentos como também me    forneça meios de explorar outras possibilidades visuais.   O  presente  trabalho  trata-se  de  um  memorial  Também  me  coloco  aqui  na  posição  política  de  reflexivo sobre as obras que compõem a série de pinturas  artista  contemporânea  brasileira,  nordestina,  potiguar  e  autorais  A​ lém  de  rostos​,  desenvolvida  a  partir  de  uma  mulher.  Ressalto  a  importância  de  se  estudar  e  apoiar  o  investigação  sobre  o  antirretrato.  É  caracterizada  como  cenário cultural local diante da conhecida dificuldade que  uma  pesquisa  em  arte,  devido  à  sua  condição  artistas  de  qualquer  vertente  enfrentam  para  ter  seu  teórica-prática  em  que  o  objeto  de  análise  será  minha  trabalho  valorizado,  principalmente  em  uma  capital  com  própria produção artística concebida a partir do estudo de  costumes tão provincianos como Natal, e em um país que  um tema.  apresenta  e  constitucionaliza  ameaças  à  Arte  todos  os  Desde  a  adolescência  desenvolvo  interesse  pelo  dias.  É  preciso resistir e mostrar que o fazer artístico não  desenho  da  figura  humana  e  a  pintura  de  retratos.  Ao  é  supérfluo,  mas  necessário  à  existência  humana  ingressar  na  Licenciatura  em  Artes  Visuais  da  UFRN,  enquanto vetor científico e cultural.  além de desenvolver diversas potencialidades técnicas da  Inicialmente,  é  feita  uma  pequena  mostra  de  pintura,  também  passei  a  problematizar  os  motivos  das  algumas  produções  artísticas  de  minha  autoria  ao  longo  minhas  obras,  a  importância  do  retrato  e  o  caráter  dos  últimos  dez  anos,  de  2008  a  2018.  Recordo  minha  naturalista.  Com  este  memorial  busco  entender  algumas  trajetória  e  exponho  as  referências  que  fundamentaram  práticas  e  noções  imagéticas  que  me  acompanham  até  meu  processo  criativo  até  o  presente,  num  resgate  que  hoje,  no  sentido  de  alcançar  uma  produção  artística  que  identifica os aspectos já existentes em meu fazer artístico  que  se  aproximam  da  premissa  da  pesquisa  e  justifica  11      alguns  dos  elementos  e  métodos  aplicados  em  seu  importância  do  planejamento,  do  registro,  da  desenvolvimento.  experimentação,  da  construção  da  ideia  à  definição  da  Em  seguida,  há  uma  sucinta  linha-do-tempo  das  forma e escolha das cores. Para tanto, contei com recursos  fases  do  retrato  no  decorrer  da  História  da  Arte, a fim de  metodológicos  como  painéis  temáticos e diários gráficos,  delinear  os  aspectos  que  caracterizam  este  gênero  além do uso de referências fotográficas para as pinturas.  pictórico  e  suas  variações  em  cada  movimento  artístico.  Por último, foram realizadas três ações pedagógicas  Este  momento  precede  uma  reflexão sobre o antirretrato,  compreendidas em duas oficinas e uma discussão teórica,  um  conceito  que  tem  se  evidenciado  em  produções  que  aconteceram  em  ocasiões  distintas.  As  oficinas  contemporâneas  ao  propor  uma  nova  perspectiva  na  tinham  como  público-alvo  os  alunos  do  Atelier  do  NAC,  representação  da  figura  humana.  São  selecionados  que foram instruídos a pintar um antirretrato do início ao  artistas  que  exploraram  a  ausência  do  rosto  em  seus  fim,  com  embasamento  conceitual,  atividades  práticas  e  retratos  no  intuito  de  exemplificar  como  o  tema  vem  detalhes  técnicos.  Já  na  discussão  teórica,  direcionada  sendo  utilizado  nas  Artes Visuais. É importante salientar  aos  estudantes  do  Departamento  de  Artes,  debatemos  os  que  nesta  fundamentação  teórica  me  atenho  aspectos  filosóficos  que  envolviam  o  conceito  do  retrato  especificamente  no  que  compete  ao  âmbito  da  pintura,  sem  rosto,  suas  implicâncias  e  inquietações,  transitando  analisando trabalhos de artistas relevantes ao tema como  entre os pontos de vista da arte, do artista e do espectador.   René Magritte, Hélène Delmaire e Henrietta Harris.    Na  análise  do  processo  criativo  da  série  ​Além  de      rostos​,  faço  uma  descrição  minuciosa  da  metodologia  empregada na concepção e execução das obras. Destaco a  12      2. DEZ ANOS ATRÁS  particular  para  me  ensinar  técnicas  mais  refinadas  de    desenho.   Cresci em Paulo Afonso, no interior da Bahia. Por se  Tive acesso à internet desde a infância e desenvolvi  tratar  de  uma  cidade  pequena  e  turística,  o  acesso  à  logo  cedo  afinidade  com  computadores  e mídias digitais,  cultura  se  dá  essencialmente  por  promoção  de  eventos,  o  que  me  ajudou  a  abrir  alguns  caminhos.  Meu  primeiro  shows,  festivais  e  encontros regionais. Não tem cinemas,  contato  com  a  prática  da  pintura  se  deu  por volta de dez  shoppings  e  galerias.  Os  poucos  museus  da  cidade  são  anos  atrás,  aos  13  anos,  quando  adquiri  minha  primeira  direcionados  à  preservação  da  memória  da  Companhia  mesa  digitalizadora.  Aquele  dispositivo  para  mim  Hidrelétrica  do  São  Francisco  (CHESF)  e  às  belezas  representava  a  perfeita  união  da  arte  com  a  tecnologia,  naturais  da  região.  Assim,  cresci  sem  referências  mais  tornando possível brincar com as cores, luz e sombra, sem  eruditas  das  artes  plásticas,  sem  contato  com  outros  lidar  com  os problemas que me incomodavam na pintura  artistas  e  minha  própria noção de arte não ia muito além  tradicional  com  pincel  e  tinta,  tais  como  a  finitude  do  do que era aprendido nas escolas, em casa ou em revistas.  material, o caráter definitivo de cada gesto, a sujeira, entre  Minha  mãe  era  artesã  e  eu  a  observava  criar  seus  outros.   arranjos  e pintar telas em seu ateliê. O trabalho manual e  A  partir  deste  momento,  me  dediquei  a  treinar  e  a pintura com tinta não me despertavam interesse: eu me  estudar cores, perspectiva, anatomia humana, iluminação,  contentava  em  apenas  desenhar  no  papel.  Queria  me  acabamento,  efeitos  especiais e manipulação de imagem.  aprimorar no desenho realista de figuras humanas. Ainda  Minhas  pinturas  possuíam  sempre  temática  relacionada  assim,  ela  se  esforçava  em  me  estimular  artisticamente,  ao universo cultural no qual eu estava imersa, como  comprava materiais e, mais tarde, encontrou um professor  13      personagens de jogos e séries1.  No  ano  seguinte,  em  2009,  percebi  um  interesse  ainda  maior  no  retrato  da  figura  humana,  especialmente  de  casais.  Comecei  a  buscar  e  colecionar  referências  visuais  de  anatomia,  poses  e  ângulos  do  corpo  humano.  Além  disso,  eu  costumava  publicar  meus  trabalhos  no  DeviantART  (www.deviantart.com),  uma  comunidade  online  ​de  artistas  amadores,  profissionais e apreciadores  de  arte.  Ali,  me  dedicava  a  estudar  o  trabalho  de  outros  artistas  jovens  como  eu,  analisando  e  assimilando  características  em  suas  obras  que  me  atraíam  na  busca    por delinear meu próprio estilo.  Fig. 1 e 2: Primeiras pinturas digitais.    O  ano  de  2010  se  apresenta  como  meu  ano  mais    produtivo, em que criei em torno de vinte obras, incluindo  desenhos  e  pinturas  digitais.  Divulgando  meus  trabalhos  no DeviantART, logo percebi que trabalhos na categoria de  1  Como  influências  culturais  visuais  da  época,  posso  citar  os  jogos  digitais  Neopets,  Priston  Tale  e  Final  Fantasy  X;  os  desenhos  animados  japoneses  Naruto,  Sailor  Moon,  Sakura  Card  Captors  e    NANA;  histórias  em  quadrinhos como X-Men; entre outros títulos do  Fig. 3 e 4: Retratos de casais da ficção.    entretenimento.  14      fã-arte2  conseguiam  muitas  visualizações  e  comentários,  o  que  me  estimulava  a continuar produzindo. Muitos dos  temas  das  minhas  obras,  inclusive,  eram  decididos  através  de  pedidos  diretos  de  seguidores.  Tive  a  oportunidade  de  conhecer  (ainda  que  virtualmente)  diversos artistas com quem pude aprender e compartilhar  os  mais  variados  conhecimentos  técnicos.  Tecíamos  elogios,  críticas  e  incentivos  uns  aos  outros  e,  assim, era  possível  acompanhar  o trabalho do colega se tornar mais  consistente ao longo das produções. Muito do que sei hoje    Fig. 5 e 6: Retratos de personagens fictícios.   acerca  da  prática  artística  e  fundamentos  da  linguagem      visual  eu  devo  a  este  intercâmbio  gerado  dentro  das    comunidades de artistas.  Durante  o  período  de  2011  e  2012,  já  em  Natal/RN,  precisei  me  afastar  do  computador  para  estudar  para  o  vestibular e vi a frequência da minha produção artística  2  Caracteriza-se  como  fã-arte,  ou  f​ anart​,  o  trabalho  artístico  realizado por fã que faz referência a personagens e/ou ao universo de  uma obra de ficção já conhecida. Geralmente trata-se de um trabalho  “de fã para fã”, em que o artista não é pago pelo autor da obra original  para ilustrar.   Fig. 7 (esq.) e 8 (dir.): Primeiras produções no curso de Artes Visuais.  15      cair  drasticamente.  Parei  de  frequentar  o DeviantART, de      acompanhar  os  trabalhos  dos  colegas  e  também de fazer      rascunhos  em  papel,  pois  até  isso  me  distraía  do  meu    objetivo.  Esse  intervalo  livre  de  produções  afetou     profunda  e  negativamente  minha  autoestima  enquanto    artista.   Ao  ingressar  no  curso  de  Licenciatura  em  Artes  Visuais da UFRN no ano de 2013, quando precisei voltar a  produzir,  aproveitei  a  oportunidade  para  sair  do  meio  digital  e  experimentar  a  produção  “à  moda  antiga”,  com  lápis  e  papel.  Na  graduação  tive  a  oportunidade  de  participar  pela  primeira  vez de uma exposição coletiva, o  que foi uma experiência transformadora, pois até então só  tinha  costume  de  ver  meu  trabalho  através  da  tela  do  computador.  Ter  minhas  obras  expostas  numa  parede ao  lado  de  colegas  tão  talentosos  me  fez  sentir  participante  Fig. 9 (esq.) e 10 (dir.): Primeiras aquarelas.    de  algo  maior,  real,  físico  e  concreto,  o  que  mudou  definitivamente  a  maneira  com  que  passei  a  me  relacionar com meu trabalho.  Tive meu primeiro contato com a aquarela em 2014,  16      com  o  professor  Erasmo  Andrade,  durante  a  disciplina  Pintura  I.  Me  fascinava  o  mistério  dessa  técnica  tão  delicada, fluida, teimosa e por vezes rebelde. Já conseguia  desenvolver  com  facilidade  certos  conceitos  característicos  da  técnica  -  como  a  noção  de  transparência, camadas e mistura de cor - devido à minha  experiência  anterior  com  a  pintura  digital,  o  que  me  surpreendeu.  Percebi  que  não  eram  meios  tão  distintos  assim,  afinal, e que muitas das noções utilizadas em uma  técnica  também  funcionavam  em  outras.  Tomei  a  liberdade de agregar outros materiais às pinturas, como o  lápis de cor e a tinta nanquim.  Nos  anos  que  se  seguiram,  continuei  pintando  retratos  em  aquarela.  De  modo  geral,  dei  uma  pausa  na  criação  de  ilustrações,  nas  quais  eu  precisava  imaginar  composições e ângulos a partir do zero, para me dedicar à  prática  da  aquarela  de  modo  mais  sistemático  com  o  auxílio  de  imagens  de  referência.  Nesse  sentido,  frequentemente  me  restringi  à  mera  reprodução  de    fotografias para me concentrar somente na execução da  Fig. 11: Primeira obra da série ​Espectro.​     17      técnica.  As  fotografias escolhidas eram majoritariamente  retratos  de  mulheres  que  eu  acompanhava  nas  redes  sociais e algumas celebridades.  Em  2016  participei  de  dois  congressos  sobre  estudos  de  gênero  e  sexualidade,  o  que  me  despertou  profundo  interesse  sobre  o  tema  e  me  inspirou  posteriormente a produzir uma pequena série de pinturas  denominada  ​Espectro  como  projeto  final  da  disciplina  Pintura  III,  ministrada  pelo  professor  Fernando  de  Paiva.  Com  tinta  acrílica,  pintei  três  retratos  de  pessoas  com  aparência andrógina3 — utilizando como referência visual  fotografias  de  pessoas  desconhecidas,  retiradas  de  diferentes  fontes  da  internet  —  numa  pequena  investigação  sobre  os  detalhes  dessa  estética  na  representação da figura humana. Meu objetivo era definir  e  explorar  quais  traços,  feições  e  gestos  identificam  um  sujeito como homem ou mulher para então provocar  3 A androginia, em seu sentido estético, se refere ao indivíduo  que  apresenta tanto características físicas coerentes ao sexo que lhe  foi  designado  como  também  do  sexo  oposto,  manifestando  uma    aparência com traços masculinos e femininos ao mesmo tempo.  Fig. 12: Segunda obra da série ​Espectro.​   18      confusão  no  espectador,  de  modo  que  o  sexo  das  figuras  retratadas  fosse  pouco  nítido  ou  óbvio.  Tecnicamente,  também  quis  experimentar  composições  com  cores  contrastantes  e  pinceladas  mais  grosseiras  e  menos  objetivas.  Segui  desenvolvendo  interesse  por  retratos  neste  último  ano,  concentrando  meus  estudos  em  técnicas  aguadas  de  pintura,  como  aquarela, acrílica e guache. Me  atraí  por  temas  que  exploram  variações  étnicas  da  fisionomia  humana,  ainda  usando  fotografias  como  referencial  visual.  Tecnicamente,  busquei  formas  de  manter  uma  representação  naturalista  mesmo  combinando camadas de cor vibrantes.      Fig. 13: Terceira obra da série ​Espectro.​     19            Fig. 14: Retrato em aquarela.  Fig. 15: Retrato em aquarela.  20      3. O RETRATO NA PINTURA    O  retrato  é  um  gênero  pictórico  que  põe  o  sujeito  humano  como  elemento  principal  da  composição,  com  o  rosto  em  detalhe.  É  expresso  em  desenhos,  pinturas,  fotografias  ou  esculturas  e,  nos  primeiros  casos,  geralmente  possui  orientação  vertical  e  enquadramento  centralizado.  A  humanidade  desde  seus  primórdios  manifesta    interesse  em  se  retratar.  Na  antiguidade,  a  pintura  do  Fig. 16 (esq.): Diego Velázquez, ​Phillip IV em Armadura,​ 1628.  retrato  foi  utilizada  no  Egito,  no  mundo  grego  e  na  Fig. 17 (dir.): Johannes Vermeer, ​ A Leiteira​, 1658.    sociedade  romana  com  finalidade  comemorativa,  religiosa  e  funerária.  “A  difusão  da  retratística  [ao  longo  da história] acompanha os anseios da corte e da burguesia  urbana  de  projetar  suas  imagens,  na  vida  pública  e  privada.” (RETRATO, 2018). Na Europa do séc. XIV, famílias  reais  e  nobres contratavam retratistas para registrar com  alto  grau  de  semelhança  a  fisionomia  de  pessoas  consideradas importantes à sua época.        Fig. 18: Gustave Coubert,​ Os Quebradores de Pedras, ​ 1849.    21      “Os  séculos  XVIII  e  XIX  fornecem  novos  contornos  aos  retratos,  projetando  figuras  de  segmentos  sociais  mais  amplos  (e  não  apenas  dos  círculos  aristocráticos)  por meio de maior liberdade expressiva” (RETRATO, 2018).  Com  a  ascensão  da  filosofia  humanista,  os  artistas  se  distanciam  de  temas  heróicos  e  se  concentram  em  retratar  cenas  da  vida  comum  com  detalhes  triviais  e  pessoas anônimas exercendo atividades cotidianas.    Durante  a  Revolução  Industrial,  a  pintura  deixa  de  Fig. 19 (esq.): Vincent van Gogh, ​Autorretrato,​ 1887.   Fig. 20 (dir.): Paul Gauguin, ​Retrato de William Mollard​, 1894.  ser  uma  atividade  exclusiva  para  poucos e gradualmente    torna-se  mais  acessível.  Alimentados  pelos  movimentos  sociais, as obras ganhavam contextos sociais, mostravam  pessoas  pobres  e  trabalhadores  executando  trabalhos  braçais e frequentemente expressavam o posicionamento  político dos autores. Por outro lado, essa difusão permitiu  que  a  pintura  também  ganhasse  caráter  experimental  como  no  Impressionismo,  quando  alguns  artistas  se  dedicaram a questionar e transgredir normas acadêmicas  do retrato.     Fig. 21 (esq.): Henri Matisse, ​Retrato da Madame Matisse,​ 1905.   Fig. 22 (dir.): Pablo Picasso, ​Retrato de Ambroise Vollard, ​1910.    22      São  exploradas  e  apresentadas  novas  possibilidades  acerca  da  representação  e  expressão  e  rompe-se  cada  vez  mais  com  a  estética  tradicional  da  pintura  a  partir  do  séc.  XX.  Nos  retratos  cubistas  e  expressionistas,  o  que  se  via  era  um  vasto  uso  de  cores  intensas,  assimetrias,  distorções  e  até  mesmo  aspectos  psicológicos.  “Pela  primeira  vez  para  muitos  artistas,  a  psique  interna  da  pessoa  sentada  era  tão  ou  mais    importante  que  sua  semelhança  em  um  retrato”  Fig. 23: Diego Rivera, ​Maternidade Angelina e o menino Diego,​ 1916.   Fig. 24 (dir.): Paul Klee, ​Senecio, 1​ 922.  (HEASTON, 2018, tradução nossa).    Segue-se  um  longo  período  no  qual  a  cena  é  dominada pela abstração e pela arte conceitual, o que não  impediu  que  alguns  artistas  continuassem  trabalhando  com  retratos.  No  início  do  séc.  XX,  os  surrealistas  brincavam  com  distorções,  biomorfismos4, justaposições5  e  conceitos  metafísicos,  criando  cenários  utópicos  que  mimetizam a fisionomia humana e vice-versa.    Fig. 25 (esq.): Egon Schiele, ​Autorretrato com camisa listrada, 1​ 910.  4 Formas abstratas que fazem referência a seres vivos.   5 Prática de colocar elementos muito próximos na intenção de  Fig. 26 (dir.): Edvard Munch, A​ utorretrato O andarilho da noite​, 1924.  fazer comparações ou destacar contrastes.  23      O retrato ressurge por volta de 1950 com a Pop Art —  dessa  vez  com  apelo  cultural,  popular  e  até  mercadológico.  “[O  movimento]  não  critica  as  consequências  do  materialismo  e  consumismo;  ele  simplesmente  reconhece  sua  presença  difusa  como  um  ato  natural”  (GERSH-NESIC,  2018, tradução nossa). Assim,  os  artistas  da  Pop Art se apropriaram imageticamente de  personagens  midiáticos,  figuras  políticas  e  celebridades  para  produzir  suas  obras,  transformando-os  em  ícones    culturais.  Fig. 27 (esq.): Frida Kahlo, D​ iego e eu,​ 1949.  Atualmente,  o  retrato  segue  muito  significante  e  Fig. 28 (dir.): Salvador Dalí, G​ alatea das Esferas, ​1952.   estimado  no  meio  artístico.  Ao  mesmo  tempo  em  que  existem  artistas  com  abordagens  menos  convencionais,  há também esforços em utilizar técnicas tradicionais para  desenvolver e discutir questões contemporâneas. Surgem  termos  como  s​ elfie  (palavra  nova  para  um  velho  conhecido,  o  autorretrato)  e  o  “antirretrato”,  cujos  conceitos e aplicações sugerem inúmeras reflexões sobre  identidade, representação e percepção do indivíduo sobre    Fig. 29 (esq.): Roy Lichtenstein, ​Autorretrato, ​ 1978.  si mesmo e os outros.  Fig. 30 (dir.): James Rosenquist, ​Presidente eleito, 1​ 964.    24      4. O ANTIRRETRATO  se referir à prática de tirar uma fotografia de si mesmo de    maneira casual.  Vimos  que,  por  definição,  o  retrato  é  a  Atualmente,  um  outro  termo  tem  sido  pautado:  o  representação artística de uma pessoa em que seu rosto e  antir​ retrato.  Este  não  deve  ser  confundido  e  tampouco  expressão  são  predominantes.  Porém,  com  os  avanços  necessariamente  possui  relação  com  o  a​ uto​rretrato,  uma  tecnológicos  e  o  crescimento  das  redes  sociais,  essas  vez  que  nem  sempre  o  sujeito  representado  é  o  próprio  características adquirem novos significados e finalidades  autor  da  obra.  O  antirretrato,  na  verdade,  propõe  uma  práticas na sociedade.  inversão  dos  cânones  clássicos.  A  ideia  principal  se  Dentro  do  gênero  do  retrato  encontramos  algumas  baseia  na  construção  de  um  retrato  anônimo,  em  que  o  vertentes,  entre  elas,  o  autorretrato.  Trata-se  do  artista  rosto  do  indivíduo  em  evidência  é  oculto  total  ou  representando  a  si  mesmo  em  sua  obra,  seja  ela  uma  parcialmente. De acordo com Shkurovich (2018, n.p.):  pintura,  fotografia,  desenho,  escultura  e  afins.  Apesar  de    O  antirretrato  se  sustenta  no  exercício  existirem  vestígios mais antigos, as primeiras evidências  paradoxal  de  mostrar  informações  que,  ao  oficiais  na  História  da  Arte  datam  do  séc.  XV  durante  o  mesmo tempo, foram tiradas ou obscurecidas. Com  isso  em  mente,  um  retrato  como  Renascimento,  em que os artistas muitas vezes pintavam  revelador de identidade é insuficiente e serve  mais  como  sugestão  do  que  como  fato.  sua própria imagem como uma das figuras integrantes da  (SHKUROVICH, 2018, n.p., tradução nossa)    cena como uma maneira de assinar a obra. O autorretrato  Em  tempos  de  superexposição  da  vida  privada  e  possui  caráter  mais  metódico  e  artístico  se  comparado  narcisismo  exacerbado,  nunca  antes  a  necessidade  com a  ​selfie,​  um termo muito utilizado na atualidade para  humana  por  representação  pareceu  tão  gritante,  como  25      uma  constante busca por ser visto. O ato de retratar e ser  mistério provoca incerteza, uma vez que a obra sugere um  retratado  se  transforma  e  ressurge  como  uma  reflexão  sentimento  ou  opinião  sobre  a  pessoa  retratada  sem  dar  sobre  a  própria  identidade,  inclusive  na  configuração  de  muitas  pistas.  A  face,  parte  do  corpo  capaz  de  apontar  o  protesto.  O  antirretrato  usa  a  negação  como  meio  para  maior  número  de  emoções  do  indivíduo,  deixa  de  ser  contrapor essa urgência, simultaneamente se envolvendo  suporte  do  artista  para  dar  expressão  e  personalidade  à  e  resistindo  às  convenções  tradicionais  do  retrato.  Para  figura e fica à mercê de outras partes da obra.  McGrory (2018, n.p.):    Para o artista, fazer um retrato é um processo    reflexivo  não  apenas  de  identidade,  mas  Nossos  olhos  são  frequentemente  atraídos  também  de  representação.  Quais  são  os  para  o  rosto  primeiro.  Sendo  seres  muito  limites?  Qual  a  flexibilidade  de  ideias?  sociais,  lemos  emoções  e histórias em rostos  (SHKUROVICH, 2018, n.p., tradução nossa)  durante  todo  o  dia.  Mas  o  que  muitas  vezes    podemos negligenciar em nossos retratos são  as  pistas  que  se  infiltram  de  maneira  mais  O termo foi cunhado e aparece com mais frequência  subconsciente  -  as  pistas  do  contexto.  Elementos  como  o  que  uma  pessoa  está  na  fotografia,  em  que  os  recursos  mais  utilizados  para  usando,  sua  linguagem  corporal,  a  cena  e  os  objetos  ao  seu  redor  muitas  vezes  contêm  remover  o  rosto  de  um  retrato  -  sem  recorrer  a  outras  muito  da  sua  história,  e  o  rosto  poderia  nos  técnicas  -  geralmente  implicam  em  escondê-lo  entre  as  dizer  como  ela  está  se  sentindo  sobre  isso.  (MCGRORY, 2018, n.p., tradução nossa)  mãos,  por  trás  de  objetos  ou  retirá-lo  do  enquadramento.    As  soluções  encontradas  na  pintura,  por  sua  vez,  são  A  pessoa  está  ali,  mas  se  perde  seu  principal  ainda  mais  diversas.  Surge  a  possibilidade  de  gancho  de  identificação.  O  rosto  oculta-se,  não  quer  ser  desconstruí-lo e desfigurá-lo.   mostrado  ou  é  substituído.  No  espaço  dessa  incógnita,    poucas informações são concretas e sobram suposições. O  26      Sem  o  rosto,  é  mais  fácil  colocarmos  nós  mesmos,  nossos  amigos  ou  membros  da  nossa  família  na  imagem,  na  história.  Deixa  espaço  para  interpretação  e mantém a figura  misteriosa  o  suficiente  para  querer  olhar  melhor e por mais tempo. (MCGRORY, 2018, n.  p., tradução nossa)    4.2 REFERÊNCIAS VISUAIS    O surrealista belga  ​René Magritte (1898-1967) foi um  dos  pioneiros  na pintura de retratos sem rosto. Sobre seu  autorretrato ​O filho do homem (1964), ​ele diz:       Fig. 31 (esq.): René Magritte, ​O filho do homem, 1​ 964.​   Pelo  menos  esconde  o  rosto  parcialmente  Fig. 32 (dir.): René Magritte, A​ reprodução proibida, ​1937  bem, então você tem o rosto aparente, a maçã,    escondendo  o  visível  mas  oculto,  o  rosto  da  pessoa.  É  algo que acontece constantemente.  Tudo  o  que  vemos  esconde  outra  coisa,  sempre  queremos  ver  o  que  está  oculto  pelo  que  vemos. Há um interesse naquilo que está  escondido  e  que  o  visível  não  nos  mostra.  Esse  interesse  pode  assumir  a  forma  de  um  sentimento  bastante intenso, uma espécie de  conflito, poderíamos dizer, entre o visível que  está  oculto  e  o  visível  que  está  presente.  (MAGRITTE  apud  TORCZYNER,  1979,  p.  172,  tradução nossa)      Fig. 33: René Magritte, O​ s amantes, ​1928.​     27      O  tema  tem ganhado cada vez mais destaque entre  artistas  contemporâneos  emergentes.  Ainda  no  surrealismo, temos a canadense  ​Alexandra Levasseur que  explora  a  relação  do  ser  humano  e  o  ambiente  em  suas  obras.  Estes  mesmos  vínculos  são  perceptíveis  no  trabalho  da  francesa H​ élène Delmaire​, que cultiva grande  predileção por antirretratos em suas pinturas a óleo. Além  da  questão  homem-natureza,  ela  também  aborda  a  fragilidade  da  existência  e  detém  certa  obsessão  pela    Fig. 34 (esq.): Alexandra Levasseur, H​ ommage a Odilon,​ 2014.  ruína  do  belo  em  seus  retratos.6  Sobre  o  tema,  Delmaire  Fig. 35 (dir.): Alexandra Levasseur, ​La Tourbiere,​ 2015.  relata:      Eu  não  pinto  pessoas  como  indivíduos,  mas  como  símbolos  da  humanidade  -  um  mero  elemento  do  todo  maior.  O  sujeito  é  frequentemente  engolido  ou  escondido  pelo  seu  ambiente  pictórico;  truncado ou apagado  com  um  toque  do  pincel.  O  rosto  e  olhos,  comumente  chamadas  de  janelas  da  alma,  são  desviados  ou  mascarados,  voltados  para  um  mundo  interior  que  nunca  pode  ser  totalmente comunicado a outro, apesar de   6  Disponível  em:      Fig. 37 (esq.) Hélène Delmaire, ​D'amour et d'eau fraiche, 2​ 011​.  28      uma  profundidade  compartilhada.  Paradoxalmente,  a  descoberta  desse  mundo  interior  vem  quando  a  identidade  pessoal  é  deixada  de  lado. Através da perda do pessoal  vem  o  universal.  (DELMAIRE,  2018,  n.  p.,  tradução nossa)    O  antirretrato  traz  para  o  artista  uma  autonomia  sobre  as  relações  de  criação  e  destruição,  do  perecível  e  da  efemeridade.  Esses  conceitos  se  revelam na liberdade  do  fazer  artístico,  simbolizando  a  dor  e  a  delícia  de  ser    Fig. 38 (esq.): Cesar Biojo, M​ ireia 23, ​2014.​   capaz  de  construir  para,  então,  desconstruir.  Nesse  Fig. 39 (dir.): Cesar Biojo, E​ lvice, ​2014.​     sentido,  os  retratos  do  colombiano  C​ esar  Biojo  e  da    neozelandesa  ​Henrietta  Harris  utilizam  do  mais  básico  artifício  pictórico  -  as  pinceladas  de  tinta  -  para  propositalmente desfigurar um rosto outrora íntegro.              Fig. 40 (esq.): Henrietta Harris, ​Fixed it VIII, 2​ 016.​   Fig. 41 (dir.): Henrietta Harris, ​Fixed it III, 2​ 016​.  29      5. A SÉRIE “ALÉM DE ROSTOS”    Fig. 42: Olga Guedes, ​Em busca do que é belo e vulgar,​ 2018.  30        Fig.43: Olga Guedes, C​ ompanhia​ , 2018.  31        Fig. 44: Olga Guedes, ​Veredas I,​ 2018.  32      .   Fig. 45: Olga Guedes, ​Veredas II​, 2018.  33      .   Fig. 46: Olga Guedes, ​Foi como ser feliz de novo,​ 2018.  34        Fig. 47: Olga Guedes, ​Te teria todo dia,​ 2018.  35        Fig. 48: Olga Guedes, ​Lugar algum,​ 2018.  36        Fig. 49: Olga Guedes, ​O tempo arde​, 2018.  37        Fig. 50: Olga Guedes, ​Eu sou as sobras,​ 2018.  38        Fig. 51: Olga Guedes, ​Latente,​ 2018.  39        Fig. 52: Olga Guedes, O​ deio despedidas​, 2018.  40      5.1 PROCESSO CRIATIVO         Em  minhas  pinturas  exploro  a  fisionomia  do    indivíduo  em  seus  detalhes  e  dissolvo  a  figura  do  corpo  em cores e manchas numa busca por outras perspectivas  de expressão da identidade. Para alcançar tais resultados,  meu  processo  criativo  costuma  obedecer  à  seguinte  metodologia:  1. Painel semântico ou ​moodboard    a. Referências fotográficas  Fig. 53: Exemplo de uma pasta no Pinterest.  b. Fotomanipulação    c. Harmonia cromática    2. Diário gráfico ou s​ ketchbook      O  conceito  do  painel  semântico  surgiu  no  ​design  com  o  nome  de  ​moodboard,​   que  consiste  em  um  agrupamento  de  referências  que  transmitam  o  conceito    visual  do  projeto  para  facilitar  a  apresentação  da  ideia  Fig. 54: Pastas separadas por projeto de cada obra.  geral ao cliente. Adaptando para o propósito da pintura,   41      no painel semântico reúno todos os materiais gráficos que  me  interessam para a feitura das obras, incluindo paletas  de  cor,  exemplos  de  trabalhos  de  outros  artistas,  elementos  que  desejo  incluir  nas  obras  e  outras  fotografias  que  serão  relevantes  para  a  composição  da    pintura  e  que  me  auxiliarão  na  construção  de  uma  atmosfera emotiva durante a produção das obras.     Apesar  de  parecer  feioso  o  nome  ​moodboard  traduzido,  a  ideia  é  exatamente  esta:  um    quadro  de emoções. Um painel que vai trazer  à  tona,  previamente,  a  atmosfera  do  projeto.  Fig. 55: Painel semântico da obra “Veredas I”.  Abstraindo  um  pouco  mais,  seria  como    conhecer  uma  pessoa  sem  vê-la,  só  pelas    roupas que tem no armário, músicas que ouve,  cores  que  gosta,  filmes  que  costuma  ver.  (MOTTA, 2018, n.p.)    A  ferramenta  que  melhor  me  auxilia  nessa  tarefa    inicial  é  o  Pinterest  (www.pinterest.com),  uma  vez  que  além  de  conseguir  agrupar  várias  imagens  relevantes  sobre  um  mesmo  tema  com  facilidade,  ele ainda permite  ao  usuário  referenciar  a  fonte  original  da  figura, caso ela    tenha sido anexada a partir de outro endereço da ​web.​   Fig. 56: Painel semântico da obra “Foi como ser feliz de novo”.  42      Depois  de  realizar  uma  rápida  curadoria  de  itens  que  serão  úteis  ao  planejamento  de  uma  obra específica, crio  pastas  individuais  no  próprio computador para organizar  visualmente  com  precisão  tudo  que  será  necessário  na  execução  dessa  obra,  principalmente  quando  envolvem  materiais que não estão no Pinterest.   Aproveito  a  oportunidade  para dar título às obras e  fazer fotomanipulações com alguma ferramenta de edição  de  imagens.  Trata-se  de  uma  espécie  de  colagem  digital,    para experimentar cores, combinações e composições que  Fig. 57: Referência fotográfica de “Em busca do que é belo e vulgar”.  podem  funcionar  para  a  obra,  retirando  e  acrescentando    itens,  modificando  o  contraste  e  o  enquadramento  das  imagens  de  referência.  Sou  muito  familiarizada  com  a  edição de imagens devido ao meu histórico com a pintura  digital  e  é  um  recurso  que  frequentemente  me  concede  muita liberdade de criação antes de me comprometer com  a tinta e o papel em sua forma definitiva.   Porém,  alguns  detalhes  são  mais  complicados,  inviáveis  ou  pouco  práticos  de  fazer  no  computador.  Por    isso, paralelamente, mantenho um diário gráfico (também  Fig. 58: Referência fotográfica de “Companhia”.  43      conhecido  como  ​sketchbook​).  Neste  diário,  desenho  fotógrafos  locais  como  referência  para  as  pinturas.  Aqui  prévias  da  composição  da  obra,  faço  testes  visuais  e  destaco  os  fotógrafos  Ian  Rassari  e  Alex  Oliveira,  cujos  anotações  acerca  do  projeto.  Faço  também  pequenas  retratos  foram  fundamentais  para  a  realização  das  amostragens  com  tinta  do  esquema  de  cores  que  vou  pinturas “Veredas I” e “Te teria todo dia”, respectivamente.  utilizar  e  registro  palavras-chave,  conceitos  e      pensamentos  que  me  direcionam  e  permitam  focar  na  finalidade  da  obra.  Costumo carregá-lo comigo para onde  vou  e  uso  como  uma  “caixa  de  entrada”  para  registrar  todas as ideias que surgem ao longo do dia. É o lugar onde  o  artista  pode  depositar  suas  impressões  mais aleatórias  sem responsabilidade com o resultado final.  Inicialmente,  o  conceito  do  projeto  incluía  o  uso  exclusivo  de  imagens  de  autoria  própria  ou  cedidas  por  amigos  como  referências  fotográficas,  mas  a  ideia  foi  se  mostrando  pouco  eficiente  durante  sua  execução  pois  haviam  muitas  fotografias  de  autoria  desconhecida  que  me  interessavam  e  serviam  ao  propósito  da  pesquisa.  Entretanto,  ainda  fiz  duas  pinturas  baseadas  em  fotografias  que  eu  mesma  tirei  de  amigos.  Houveram  também  duas  ocasiões  em  que  optei  por  trabalhos  de  44            Fig. 59: Ian Rassari, E​ quinócio​, 2018.  Fig. 60: Alex Oliveira, ​Benzinhos,​ 2018.    45      6. CONSIDERAÇÕES FINAIS  leva  o  espectador  a  imaginar  se  a  permanência  daquele    objeto  se  deu  de  maneira  condescendente  ou  foi  Percebi, ao longo desta pesquisa, a presença de três  inadvertida,  talvez  por  motivos  de  força  maior  como  a  juízos  acerca  do  antirretrato:  o  ponto  de  vista  do criador,  interferência do ambiente.  da  criação  e  do  observador  da  obra. Estas três instâncias  Este  raciocínio  nos  leva  à  composição  da  obra  e  à  estão  intrinsecamente  interligadas  e  são  codependentes  posição  do  sujeito  no  enquadramento  do  retrato,  que  em  termos  de  percepção  e  entendimento  da  obra  de arte  constitui uma outra alternativa de remoção do rosto —  às  como um todo.   vezes  a  cabeça  inteira  (fig.  46,  52).  O  retrato liberta-se da  Uma  das  decisões  que  o  artista  precisa  tomar  supremacia  facial  e  o  corpo,  agora  desimpedido,  passa  a  durante o planejamento de um antirretrato é em relação à  receber  olhares  ainda mais atentos. As mãos se mostram  sutileza com que o rosto será coberto ou retirado. A figura  grandes  favoritos  como  suplentes  na  carga  de  humana  na  obra  pode,  por exemplo, ser configurada para  experiências emocionais em antirretratos (fig. 37, 43 e 49).  esconder a face com seu próprio corpo (ver fig. 32, 47 e 50).  Há  ainda  a  competência  em  que  o  criador  ​se  É  uma  atitude  que  denota  introspecção,  autonomia, ideia  apropria  do  meio  artístico  para  modificar,  distorcer  ou  de  existência  e  pertencimento  no  espaço.  Reconhece  deformar  ​o  rosto  antes  mesmo  de  premeditar  o  alguma  independência  do  retratado  enquanto  surgimento de um (fig. 48). Sua presença é negada desde o  personagem de uma narrativa.   início, o que exige certo domínio técnico sobre linguagens  Por outro lado, o rosto pode ser substituído por algo  visuais. O espaço de sua ausência é transformado e passa  anômalo  à  figura,​   como  um  enxerto  (fig.  29, 31 e 51). Essa  a enriquecer a obra imageticamente, em vez de subtrair. A  disposição  reforça  o  interesse  naquilo  que  há  por  trás  e  variação mais abrupta se dá na forma de recorte (fig. 34 e  46      36),  em  que  os  limites  do  rosto  são  delimitados  e  sua  — partindo do princípio que a moldura tem como objetivo  superfície é preenchida por outra substância.  dar suporte e ornamentação ao trabalho artístico.  Um  dos  métodos  mais  polêmicos  envolve  Destituído  da  parte  mais  importante,  a  confeccionar integralmente a face para então apagá-la​. Na  responsabilidade  sobre  a  atribuição  de  sentido  e  pintura,  isso  geralmente  se dá com pinceladas gestuais e  significado  do  retrato  é  quase  imediatamente transferida  permanentes sobre o rosto finalizado, como nos trabalhos  para o observador. O artista pode oferecer algum contexto  de Cesar Biojo (fig. 38 e 39) e Henrietta Harris (fig. 40 e 41).  e até sugerir uma atmosfera, mas é o espectador quem vai  Pode  ser  considerado  transgressor  e  causar  certo  debruçar  sobre  a  obra  suas  impressões  mais  subjetivas,  incômodo  por  implicar  que  de  fato  havia algo pronto que  inclusive sua própria noção de identidade. Ultrapassando  então  foi  arruinado  e  não  pode  mais  ser  contemplado,  a  visualidade,  há  uma  interação  inconsciente.  Ao  se  como  se  fosse  tarde  demais.  Apesar  de  parecer  violenta,  projetar,  a  pessoa  retratada  se torna aquele que o assiste:  essa  abordagem  simboliza  a  consciência  do artista sobre  ainda  que  por  um  instante,  ambos  sentem  as  mesmas  a  efemeridade  de  seu  trabalho.  A  descaracterização  do  emoções  e  compartilham  da  mesma  história.  Quem  retrato  traz  a  noção  de  desapego  da  obra  de  arte  ao  observa  não  somente  participa  como  também  integra  a  assumir que na verdade ela nunca está completa.   essência  expressiva  do  antirretrato,  completando  o  que  Todas  essas  ordens  só  ocorrem  no  nível  primário  estava  faltando.  Perde-se  o  rosto  para  que  o  indivíduo  em  que  o  criador  detém  poder  criativo sobre sua criação.  retratado ganhe a feição de quem o observa.  Uma vez exposto, o antirretrato é amalgamado por efeitos  Tal  incumbência  pode  ser  instigante  ou  que  fogem  ao  domínio da própria obra. Passa a funcionar  assustadora.  Durante  as  ações  pedagógicas,  observações  como uma espécie de moldura para a interpretação alheia  dos  participantes apontaram que a ausência do rosto une  47      tanto  quanto  é  capaz  de  repelir.  Enquanto  esta  segunda  representar  alguém  familiar  sem  apelar  para  o  rosto,  é  circunstância  tem  se  provado  um  fato  recorrente  em  interessante  perceber  os  artifícios  utilizados  por  quem  termos  de  fotografia  e  redes  sociais  (pesquisas  indicam  retrata para trazer semelhança a essa pessoa específica. A  que  imagens  com  rostos  humanos  tem  38%  mais  concentração  costuma  voltar-se  à  expressão  corporal,  probabilidade  de  receber  curtidas  e  32%  mais  chance  de  cabelos,  acessórios,  roupas  e  ao  emprego  estratégico  das  atrair  comentários  que  fotos  sem  rosto)7,  percebo  uma  cores.  incidência  inversamente  proporcional  no  formato  de  Contrariando  o  conceito  mais  básico  do  retrato,  pintura.  Acredito  que isso se justifica pela permissão que  conclui-se  que  a  presença  do  rosto  não  é  parte  a  obra  de  arte  figurativa  detém  no  que  diz  respeito  ao  fundamental  para  a  construção  de  sua  identidade,  dado  descomprometimento  com  a  representação  fiel  da  que  este  elemento  não  se  encontra  isolado  de  outros  realidade.  componentes  visuais  e  menos  ainda  está  imune  da  O antirretrato é muitas vezes referido como “retrato  subjetivação  poética  de  terceiros.  Na  verdade,  o  anônimo”.  Esse  termo  levanta  questões  relativas  à  antirretrato  vai além e proporciona infinitas perspectivas  identificação  prévia  daquele  que  é  retratado,  como  nos  narrativas ao alimentar a curiosidade do espectador.  casos  em  que  se  trata  de  uma  personalidade  A pesquisa da série  ​Além de rostos marcou o início  desconhecida  ou  de  alguém  que  deveria  ser  reconhecido  de  uma  intensa  jornada  de  autoconhecimento.  Me  (como  os  ícones  da  Pop  Art).  Diante  do  desafio  de  contentava  apenas  com  desafios  técnicos,  mas  me  esforcei  em  imprimir  mensagens  em  pinturas  que  7 almejavam  uma  liberdade  poética  além  da  referência   Disponível  em:  . Acesso em: 09 nov. 2018.  48      grande aprendizado profissional e pessoal. Vejo com mais  pela  a  oportunidade  de  compartilhar  e  sensibilizar  as  clareza  os  temas  que  me  atraem  e  entendo  quais  pessoas através dele.  influências  fundamentaram  minhas  escolhas.  Tive  a      oportunidade  de  experimentar  diferentes  metodologias,  descobrir  o  que  funcionava  para  as  particularidades  do  meu  fazer  artístico  e  acompanhar  meu  processo  criativo  tornar-se mais definido e organizado.   Constatei  que  as  pinturas  adquiriram  motivações  mais  íntimas  à medida que a pesquisa avançou. A feitura  de  cada  obra  foi  moldada  e  diretamente  afetada  pela  conjuntura do meu estado físico e psíquico ao longo deste  período,  ao  mesmo  tempo  em  que  obedecia  às  minhas  inquietações  enquanto  artista-pesquisadora.  Ver  meus  anseios e preocupações expressos nestes antirretratos me  trouxe  uma  percepção  inédita  sobre  a  potencialidade  e a  relevância  do  meu  trabalho.  Através  dessa  pesquisa  fui  capaz  de  assimilar  os  vários  lugares  que  ocupo  na  sociedade  e  refletir  sobre  o  papel  crítico  da  obra  de  arte.  Sou  criadora  e  criatura  deste  percurso  e  me  sinto  grata  49      REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  am-pictures-faces-are-more-popular>. Acesso em: 09 nov.    2018.  CRAVEN,  Jackie.  S​ urrealism  - The Movement and Artists    Who  Defied  Logic.  D​ isponível  em:  GERSH-NESIC, Beth.  ​The History of Pop Art (1950s-1970s).  .  Disponível  em:  Acesso em: 17 nov. 2018.  .    Acesso em: 17 nov. 2018.  DELMAIRE,  Hélène.  A​   propos/About  -  Helene  Delmaire.    Disponível  em:  HEASTON,  Paul.  ​The  History  of  Portraiture:  ​A  Trip  .  Through  Time.  Disponível  em:  Acesso em: 09 dez. 2018.  . Acesso em: 02 jun. 2018.  FARLEY,  Katie.  César  Biojo  |  Blanc  Magazine.  D​ isponível    em:  LARK,  Jasmine.  B​ iography  of  Alexandra  Levasseur.  .  Disponível  em:  Acesso em: 14 nov. 2018.  .    Acesso em: 14 nov. 2018.  GEORGIA  TECH.  ​Face  It:  Instagram  Pictures  With  Faces    are  More  Popular.  Disponível  em:  MANNING,  James.  ​Why Henrietta Harris makes beautiful  .  978-85-7979-060-7  Acesso em: 14 nov. 2018.      SENN, Evan. Honest Intimacy: The Art of Hélène Delmaire  MCGRORY,  Marie.  “The  Faceless  Portrait”  Photo  |  B​ eautiful  Bizarre  Magazine.  Disponível  em:  Assignment  --  N​ ational  Geographic  Your  Photo.  . Acesso em: 09 jun. 2018  . Acesso em: 02 out. 2018.  SHKUROVICH,  Aline.  Anti-retrato  [English]  -  Proposals  -    Curatorial Intensive - Independent Curators International.  MOTTA,  Letícia.  ​Você  sabe  o  que  é  um  “moodboard”  e  Disponível  em:  como  ele  pode  te  ajudar?  D​ isponível  em:    Acesso em: 10 jun. 2018.  Acesso em: 31 out. 2018      TORCZYNER,  Harry.  M​ agritte:  Ideas  and  Images.  New  RETRATO.  In:  ENCICLOPÉDIA  Itaú  Cultural  de  Arte  e  York: Harry N. Abrams, 1979. p. 172.  Cultura  Brasileiras.  São  Paulo:  Itaú  Cultural,  2018.      Disponível  em:  .  51      APÊNDICE A — PLANO DE AÇÃO PEDAGÓGICA #1  4. Introdução de metodologias criativas;    5. Planejamento  e  rascunho  da  obra  a  ser  I. Título: M​ ini-curso “Antirretratos em pintura”  concluída na próxima sessão.  II. Dados de Identificação:   B. SEGUNDO DIA (prático):  A. LOCAL:  Atelier  do  Núcleo  de  Arte  e  Cultura  -  1. Demonstração de técnicas artísticas;  Centro de Convivência da UFRN  2. Produção das obras;  B. DATA: 18 e 25 de outubro de 2018  3. Retorno avaliativo dos alunos.  C. DURAÇÃO: 3 horas/dia, totalizando 6 horas  VII. Recursos  didáticos:  Projetor  de  slides,  folhas  de  papel  D. VAGAS: 15 participantes  vegetal,  fotografias  de  retrato,  revistas  e  material  de  III. Tema: O​ antirretrato na pintura  desenho e pintura (tintas, lápis, borracha, régua).  IV. Objetivos:  ​Apresentar  o  processo  criativo  por  trás  da  VIII. Bibliografia:   série  ​Além  de  rostos  e produzir um antirretrato a partir  FARLEY, Katie. César Biojo |  ​Blanc Magazine. Disponível  da  discussão  teórica  sobre  o  tema,  análise  de  obras  de  em:  arte e exercícios práticos.  . Acesso em: 14 nov. 2018.  retrato    VI. Desenvolvimento:  HEASTON,  Paul.  T​ he  History  of  Portraiture:  A  Trip  A. PRIMEIRO DIA (expositivo):  Through  Time.  Disponível  em:  1. Retrato  e  antirretrato:  caracterização,  . Acesso em: 02 jun. 2018.  2. Mostra da série A​ lém de rostos;    3. Debate sobre fotografia e pintura;  52      IF IT’S HIP, IT’S HERE. ​Not Eggsactly Your Typical Easter  SENN,  Evan.  Honest  Intimacy:  The  Art  of  Hélène  Art:  Urs  Fischer.  Disponível  em:  Delmaire  |  ​Beautiful  Bizarre  Magazine.  Disponível  em:  . Acesso em: 09 nov 2018.  -the-art-of-helene-delmaire/>. Acesso em: 09 jun. 2018      LARK,  Jasmine.  B​ iography  of  Alexandra  Levasseur.  SHKUROVICH,  Aline. Anti-retrato [English] - Proposals -  Disponível  em:  Curatorial  Intensive  -  I​ ndependent  Curators  International.  Disponível  em:  . Acesso em: 14 nov. 2018.  .    Acesso em: 10 jun. 2018.  MANNING,  James.  W​ hy  Henrietta  Harris  makes    beautiful  portraits  -  then  defaces  them.  Disponível  em:  TORCZYNER,  Harry.  ​Magritte:  Ideas  and  Images.  New  .  Acesso em: 14 nov. 2018.    RETRATO.  In:  ENCICLOPÉDIA  Itaú  Cultural  de  Arte  e  Cultura  Brasileiras.  São  Paulo:  Itaú  Cultural,  2018.  Disponível  em:  .  Acesso  em:  03  jun.  2018.  Verbete  da  Enciclopédia.  ISBN: 978-85-7979-060-7  53      APÊNDICE  B  —  RELATÓRIO  DAS  ATIVIDADES  DA  AÇÃO  PEDAGÓGICA #1    O mini-curso se deu nas dependências do Atelier do  Núcleo  de  Arte  e  Cultura  (NAC),  localizado  no  Centro  de  Convivência da UFRN, e teve como público-alvo os alunos  dos  cursos  de  desenho  e  pintura  do  próprio  Atelier.  Foi  dividido  em  dois  momentos,  sendo  a  primeira  parte    realizada no dia 18 de outubro, e a segunda parte realizada  uma semana depois, em 25 de outubro de 2018, totalizando  seis horas de duração.  Durante  aproximadamente  três  anos  da  minha  trajetória acadêmica eu fui estagiária e bolsista do Atelier,  onde  tive  meu  primeiro  contato  com  o  exercício  da  docência.  Neste  espaço  construí  relações  e  tive  experiências  que  definiram  muito  do  que  sou  profissionalmente hoje e, para o discente de Artes Visuais,  é  um  local  muito  rico  em  oportunidades  de  aprendizado.  Assim,  foi  inevitável  pensar  nele  e  dedicar  uma  parte  da    Primeiro e segundo dia do mini-curso no Atelier do NAC.    minha pesquisa ao Atelier durante o planejamento das  Fonte: arquivo pessoal.  54      ações  pedagógicas.  Preparei  um  plano  de  aula  em  que  enumerei  os  objetivos,  pontos  a  serem abordados e quais  atividades realizaríamos, além de confeccionar um poster  informativo  que  foi  veiculado  para  todos  os  alunos  matriculados.   O propósito do mini-curso era que cada participante  produzisse  seu  próprio  antirretrato.  No  primeiro  dia,  fiz  uma  longa  introdução  teórica  para  que  eles tivessem um  bom  embasamento  sobre  o  tema  e  esclareci  meus    métodos  criativos  para  que se sentissem mais motivados  a  testá-los.  Investi  bastante  tempo  na  análise  de  obras,  fazendo  perguntas,  problematizações  e  incentivando  a  participação  de  todos.  Não  precisei  insistir  muito,  uma  vez  que  os  alunos  do  Atelier ficaram bem à vontade para  tirar  dúvidas  e  tecer  comentários.  Alguns  deles  já  me  conheciam  por  terem  sido  meus  alunos  em  outros  semestres,  o  que  ajudou  a  construir  uma  atmosfera mais  intimista  durante a ação. Houveram momentos de debate  e  discussão  entre  eles sobre o tema, cujos levantamentos    Participantes executando as atividades propostas.   infelizmente não me recordo.  Fonte: arquivo pessoal.  55      Na  última  hora  da  primeira  sessão,  anunciei  que  eles  iriam  planejar  como  fariam  o  antirretrato  a  ser  concluído  na  próxima  semana.  Distribuí  folhas  de  papel  vegetal  para  todos  e  revistas  para  aqueles  que  não  trouxeram foto. Propus que eles traçassem com grafite no  papel  vegetal  por  cima  da  foto,  mentalizando  o  que  colocariam  no  lugar  do  rosto  ou  como  fariam  para  escondê-lo  ou  desconstruí-lo.  Sugeri  que  pensassem  na  adição  de  outros  elementos  à  obra  que  expressem  personalidade  ou emoções sobre a pessoa retratada, além  de  experimentar  combinações  de  cores  e  composições.  Muitos  se  empolgaram  com  a  atividade  e  houve  uma  participante que decidiu começar a pintar seu antirretrato  ali  mesmo,  ao  fim  do  primeiro  dia  -  mesmo  eu  deixando  claro  que  só  era  necessário  o  planejamento.  Uma  das  bolsistas  me  confidenciou  posteriormente  que  esta  participante,  especificamente,  não  gostava  de  pintar  retratos  e  acabou  sendo  uma  das  que  mais  se  empolgou    com a proposta.  Trabalhos realizados pelos alunos do Atelier ao fim do mini-curso.  Fonte: arquivo pessoal.    56      No  segundo  dia,  com  os  antirretratos  previamente  desenho de figura humana: quando alguns alunos tinham  arquitetados  e  rascunhos  em  mãos,  demos  início  à  dificuldade  em  desenhar  as  mãos,  por  exemplo,  produção  das  pinturas.  Dediquei  a  primeira  hora  para  frequentemente  desistiam  de  ilustrá-las  e  tentavam  fazer  uma  demonstração  prática  das  técnicas  e  dos  esconder  (às  vezes  de  maneira  bem  criativa,  como  materiais  que  utilizo  enquanto  pinto.  As  horas  que  se  colocando-as no bolso do personagem) numa tentativa de  seguiram foram de assistência e monitoria, em que eu e os  não  ter  que  lidar  com  o  problema  sem  ignorar  que  ele  bolsistas  auxiliamos  os  participantes,  um  por  um,  a  existe. No geral, todos os retornos foram positivos e houve  alcançar os resultados desejados no seu trabalho. O apoio  até pedido de continuidade do mini-curso.  dos  bolsistas do Atelier, inclusive, foi fundamental para o    sucesso  da  ação  pedagógica.  Fernando,  Joselita  e  Liz    foram  excepcionalmente  dedicados  em  atender  às    minhas demandas e dos alunos.     Foram  26  inscritos  no  total.  Ao final, pedi para que    cada participante deixasse uma pequena avaliação escrita    sobre suas impressões acerca da ação ou do tema. Recebi    algumas  respostas  que  envolviam  a  dificuldade    enfrentada em desenhar e pintar retratos realistas. Muitos    participantes  estavam  satisfeitos  por  encontrar  no      antirretrato uma alternativa segura e expressiva à temida  representação  do  rosto  humano. Me lembrei das aulas de  57      APÊNDICE C — POSTER DE DIVULGAÇÃO DA AÇÃO PEDAGÓGICA #1    58      APÊNDICE D — PLANO DE AÇÃO PEDAGÓGICA #2      I. Título: ​Discussão teórica “Além de rostos”  VIII. Bibliografia:  II. Dados de Identificação:   FARLEY, Katie. César Biojo |  ​Blanc Magazine. Disponível  A. LOCAL: Departamento de Artes da UFRN  em:  B. DATA: 9 de novembro de 2018 (2h de duração)  . Acesso em: 14 nov. 2018.  IV. Objetivos:  A​ presentar  o  processo  criativo  por  trás  da    série  ​Além  de  rostos  e  fomentar  um  debate  sobre  o  GEORGIA  TECH.  ​Face  It:  I​ nstagram  Pictures With Faces  antirretrato  a  partir  da  fundamentação  teórica,  análise  are  More  Popular.  Disponível  em:  de obras de arte e problematização do tema.  .  Acesso  em:  09  retrato  nov. 2018.  VI. Desenvolvimento:    A. Retrato  e  antirretrato:  caracterização,  contexto  HEASTON,  Paul.  T​ he  History  of  Portraiture:  A  Trip  histórico e exemplos visuais;  Through  Time.  Disponível  em:  B. Mostra da série A​ lém de rostos;  . Acesso em: 02 jun. 2018.  D. Introdução de metodologias criativas;    E. Articulação de questionamentos.  IF IT’S HIP, IT’S HERE. N​ ot Eggsactly Your Typical Easter  VII. Recursos didáticos:​ Projetor de slides.  Art:  Urs  Fischer.  Disponível  em:    59      . Acesso em: 09 nov. 2018.  .  Acesso  em:  03  jun.  2018.  Verbete  da  Enciclopédia.  LARK,  Jasmine.  B​ iography  of  Alexandra  Levasseur.  ISBN: 978-85-7979-060-7  Disponível  em:    SENN,  Evan.  Honest  Intimacy:  The  Art  of  Hélène  . Acesso em: 14 nov. 2018.  Delmaire  |  ​Beautiful  Bizarre  Magazine.  Disponível  em:    . Acesso em: 09 jun. 2018  beautiful  portraits  -  then  defaces  them.  Disponível  em:    .  Curatorial  Intensive  -  I​ ndependent  Curators  Acesso em: 14 nov. 2018.  International.  Disponível  em:    .  MCGRORY,  Marie.  “The  Faceless  Portrait”  Photo  Acesso em: 10 jun. 2018.  Assignment  --  ​National  Geographic  Your  Photo.    Disponível  em:  TORCZYNER,  Harry.  M​ agritte:  Ideas  and  Images.  New  . Acesso em: 02 out. 2018.    RETRATO.  In:  ENCICLOPÉDIA  Itaú  Cultural  de  Arte  e  Cultura  Brasileiras.  São  Paulo:  Itaú  Cultural,  2018.  60      APÊNDICE  E  —  RELATÓRIO  DAS  ATIVIDADES  DA  AÇÃO  PEDAGÓGICA #2    A  discussão  teórica  se  deu  durante  a  programação  da 8ª Semana de Artes Visuais, no Departamento de Artes  da UFRN, tendo como público-alvo os discentes do próprio  departamento.  Aconteceu  no  dia  9  de  novembro,  teve  a  duração  de  duas  horas  e  houveram  9  inscritos,  cujo grau  de  instrução  variou  desde  alunos  do  Ensino  Médio  até  professores universitários, entre artistas e apreciadores.  A  proposta  consistiu  em  incitar  um  debate sobre o  antirretrato  e  suas  implicações  não  somente  na  pintura,  mas  também  em  outras  linguagens  artísticas.  Em  meus  apontamentos  relacionei  fotografias  com  rosto  e  redes  sociais,  trazendo  a  discussão  para  um  viés  reflexivo  e  filosófico sobre o papel da face e sua importância na atual  conjuntura  social.  Por  se  tratar  de uma ação de conteúdo  essencialmente  expositivo,  a  participação  dos  inscritos  foi pontual.     Discussão teórica durante a 8ª Semana de Artes Visuais.   Em um dado momento perguntei se o antirretrato  Fonte: arquivo pessoal.  61      aproxima  ou  afasta  o  espectador  da  obra,  e  um  dos  participantes  associou  com  o  “vale  da  estranheza”.  Trata-se  de  uma  hipótese  da  robótica  e  computação  gráfica  que  ressalta  o  desconforto  que  observadores  sentem  ao  se  deparar  com  réplicas  humanas  verossimilhantes  demais.8  É  um  conceito  amplamente  aplicado  em  videogames  e  filmes de terror para provocar  medo.  No  caso  do  antirretrato,  seria  o  exemplo  de  um  personagem  sem  rosto  que  detém  várias  outras  características  humanas.  Em  alto  grau  técnico  de  realismo,  isso  dificultaria  para o cérebro relacionar como  algo  confiável  ou  uma  ameaça.  Ou  seja,  a  confusão se dá  quando se parece verdadeiramente um ser humano e não  uma  representação  ou  algo  figurativo,  sendo  mais  difícil  de o efeito ocorrer em um desenho animado, por exemplo.  Conclui-se,  então,  que  a  depender  da  riqueza  de detalhes  da obra, pode causar mais estranhamento que admiração.  8  Disponível  em:    .  Acesso  em:  17  de  nov.  de  Fonte: arquivo pessoal.  2018.  62